Os advogados vão ao cinema

Quem não gosta de uma boa história? Desde os tempos imemoriais os seres humanos se reúnem para contar histórias. Lendas, casos curiosos e engraçados, narrativas religiosas: foi assim que a humanidade estabeleceu laços pelas tradições, passando a cultura de geração em geração. Durante séculos, a humanidade aprimorou seus meios. Na Grécia clássica, por exemplo, as pessoas iam ao teatro para assistir as representações, nas quais se discutiam, a partir de um enredo, os grandes temas da sociedade. Durante a Idade Média, romancistas e trovadores entretinham o povo e faziam refletir. Na Inglaterra de Shakespeare, representações sofisticadas se tornaram o divertimento mais popular da Nação. De fato, enfim, todo mundo gosta de ouvir uma boa história.
O avanço tecnológico, aperfeiçoado como um foguete no curso do século XX, tornou possível gravar uma imagem. Surgiu o cinema. E, com o tempo, muitos artistas desenvolveram diversas formas para filmar uma história. O cinema, então, se tornou um dos meios mais potentes para a difusão de informações. E se tornou mais: uma arte. A sétima arte.
Em “Os advogados vão ao cinema” (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019) José Roberto de Castro Neves (organizador) apresenta obra riquíssima em conteúdo, a partir da qual condensa trinta e nove ensaios de diversos autores, dentre destacados profissionais do Direito (advogados, juízes e professores universitários), que examinaram filmes com paixão e inteligência, relevando histórias que os inspiraram. A verdade é que o cinema e o Direito não raro andam juntos. Temas jurídicos são constantemente levados à grande tela, de forma explícita, implícita ou subliminar. Talvez por isso, e falo por mim mesmo, os filmes sejam tão interessantes para os operadores do Direito.
Querem ver? Vejamos, pois. No primeiro texto constante da obra Marcelo Muriel apresenta uma análise da trilogia cinematográfica “O Poderoso Chefão”, estrelada, especialmente na segunda e na terceira parte, por Al Pacino, aquele que, para este que vos escreve, é o maior ator de todos os tempos. Os filmes retratam, bem sabemos, a realidade da máfia nos Estados Unidos, notadamente a partir de Nova York. O que está em jogo ali é a verdadeira sobrevivência. O cenário é da lei do mais forte, a selva. E o que isso representa? Ora, eis a conclusão que alcancei, representa, em suma, um cenário de “não Direito”.
Já Francisco Mussnich retrata um dos mais belos filmes já produzidos por Hollywood, qual seja “O sol é para todos”. A história retrata o calvário de um negro acusado de ter cometido assédio contra uma mulher branca componente da alta sociedade de um município fictício do sul dos EUA. O preconceito e o racismo eram a tônica daquela sociedade. Tarefa difícil, a de defender o semelhante. Mesmo assim AtticusFinch, um advogado respeitado na localidade, decide assumir a defesa. E lança uma das frases mais marcantes da história do cinema: “Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente se vence. Mas pode acontecer”. Qual foi o destino do réu? Assistam o filme.
E o que falar do texto de Selma Ferreira Lemes, que retrata o filme “A dama dourada”. O enredo é verídico. E lida com a briosa empreitada de correção de rumos da civilização no pós-Segunda Guerra. Os fatos ocorreram na Viena de 1938, durante a invasão das tropas nazistas. Os nazistas, durante a ocupação, confiscaram (ilegalmente) o patrimônio alheio, inclusive a partir de obras de arte, notadamente da comunidade judaica. Maria Bloch-Bauer Altmann decide, então, reivindicar ao Estado austríaco as obras de arte que eram de sua família. Mesmo após o término da Guerra, sem reparação ou devolução, o Estado da Áustria permaneceu na posse de muitos ativos que não eram dele. E o pior: cuja posse havia se dado pelos nazistas. O filme retrata, então, a batalha judicial daí decorrente. Maria venceu. E o alerta do filme é: um Estado totalitário que não reconhece os direitos fundamentais é capaz de qualquer coisa. Etecetera.
Dos trinta e nove textos consignados na obra coletiva, ficamos com os três aqui. E, sobretudo, com uma pergunta fundamental: quando nós, os advogados, deixamos de pensar no Direito? Para mim, e falo novamente por mim, apenas quando amamos, quando nosso olhar brilha ao contemplar a presença alheia. Aí o tempo para e nada mais importa. De resto, não deixamos de pensar mesmo…é impossível, afinal, o Direito, com o seu estudo e a sua prática, faz parte de quem somos.

* Originalmente este conteúdo foi publicado no jornal impresso