O júri e a “grobata”

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A advocacia é uma profissão multifacetada. As características que compõe a sua natureza levam-nos a declarar ser ela ciência, pela gama de conhecimentos que exige; arte, em face da grande parcela de improvisação e originalidade que requer; e sacerdócio, pelo intensidade de repúdio e sacrifício aos quais se obrigam os advogados.

Note-se que alguns aspectos pessoais distintivos do legisperito que lhe emprestavam uma marca inconfundível, quais sejam a   indumentária, a escrita e o linguajar, estão sofrendo alterações. O legisperito agora está aos poucos se desvencilhando da gravata e alguns do paletó. Na sua escrita está pondo de lado citações latinas, palavras em desuso, termos jurídicos desnecessários, longas citações doutrinárias e na retórica tenta seguir métodos modernos de informação em substituição ao oração pomposo de outrora.

No entanto, a advocacia mantem alguns traços imutáveis que vencem o tempo e são intrínsecos à sua personalidade e ao seu caráter.

Uma das suas características é a atração que desperta na prensa e na própria sociedade, mormente na espaço criminal. O ressaltado intensidade de humanismo, sensibilidade e emoção contido nos conflitos, e por vezes, o paixão e o ódio suscitados pelos protagonistas da cena judiciária, são fatores de irresistível interesse coletivo.  

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A advocacia é um repositório de histórias reais, por vezes ficcionais, folclóricas, dramáticas e hilárias. Demais dá ensejo à especulação midiática, asas à imaginação e a interpretações as mais díspares e antagônicas sobre o mesmo indumento.

Mais do que qualquer outra a advocacia criminal, pela natureza dos eventos que acolhe, os crimes, provoca a atenção e a curiosidade da sociedade, interessada pelo indumento em si e pelo julgamento do criminado.

Entre os litígios criminais, os que envolvem o delito de homicídio, tentado ou consumado, são os que mais dão ensejo a episódios pitorescos, tiradas de espírito, esgrimas verbais, gozações envolvendo advogados e promotores, rápidos apartes e respostas precisas. É na Tribuna do Júri que os seus protagonistas podem, com liberdade, dar vasão aos seus conhecimentos jurídicos, à sua destreza de espírito e de raciocínio e à sua perspicácia e viveza de lucidez.

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Esses atributos postos nas discussões da pretexto e os dramas humanos que trazem uma identidade com o cotidiano das pessoas representam uma atração ao varão geral, independente de suas condições sociais e de sua cultura.

O meu primeiro escritório foi na Terreiro da Sé, nº 399, onde meu pai esteve desde 1957. Prédio macróbio, charmoso, a porta do elevador era “pantográfica”, feita de pontas, que qual uma sanfona era oportunidade e fechada manualmente.

O zelador era um português de promanação, no Brasil desde a dez de vinte ou trinta, que, embora sem nenhuma instrução, era portador de uma aguçada lucidez e um privativo apreço pelo Tribunal do Júri. Quando podia ia ver à uma sessão.

Dizia e era verdade, que assistira aos júris dos grandes advogados da estação. Os conhecia e deles falava com alguma intimidade. Dante Delmanto, Covello, Américo Marco Antonio Cirilo Júnior, Marrey Júnior, Waldir Troncoso Peres e outros eram submetidos à sua estudo e sátira, sempre era rigorosa.

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Pois muito, quando comecei a atuar no Plenário do Primeiro Tribunal, nomeado pelo saudoso companheiro e juiz Edgardo Severo de Albuquerque Maranhão a presença do Adelino era obrigatória.      

Sentava-se nos primeiros bancos do imponente salão do Tribunal do Júri, o primeiro, e lá ficava do início à proclamação do resultado dos jurados e da sentença proferida pelo magistrado. A partir de uma determinada estação, passei a ser nomeado também pelo juiz Fernandes Ramalhete, que presidia o Segundo Tribunal, localizado no quarto caminhar do vetusto prédio do Tribunal de Justiça. Lá também a presença de Adelino era obrigatória.

Não pensem que o companheiro comparecia aos julgamentos para me aplaudir. Ao contrário, passou a ser o meu crítico. Dizia ao final com o seu gostoso sotaque português: “o menino foi muito, mas no meu tempo vi melhores”. Por vezes, fazia críticas procedentes extraídas de sua lucidez intuitiva, embora inculta.

Tenho enorme saudade do velho Adelino, que, esqueci de expor, honrava as formalidades o Júri do pretérito, pois só ia às sessões portando uma gravata multicolorida, que ele pronunciava “grobata”.

Adelino, onde estiver, ponha sua “grobata” e olhe por mim. 

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