No jogo das cartas-manifesto, a direita está ganhando da esquerda

A carta assinada pelo Movimento de Advogados de Direita já tem cerca de 700 mil assinaturas; grupo afirma que existe atualmente no Brasil uma gravíssima tentativa da consolidação da ditadura do pensamento único

Reprodução / Youtube Flávio BolsonaroManifesto de apoio ao presidente Jair Bolsonaro em resposta à carta elaborada pela USP foi organizado por grupo de advogados de direita

Nas cartas, manifestos e outros documentos afins, a direita está ganhando da esquerda. Não chega a ser uma goleada, mas está ganhando. A “Carta aos Brasileiros”, elaborada pela Faculdade de Direito da USP, não está sozinha nessa parada. O país está mesmo trilhando caminhos cada vez mais difíceis. Ninguém sabe ao certo o que poderá acontecer no Sete de Setembro que, neste ano, terá comemorações especiais, até com a presença de governantes estrangeiros. Advogados de direita reagiram à “Carta aos Brasileiros” com um manifesto de apoio ao presidente Jair Bolsonaro “em defesa das liberdades individuais e das garantias institucionais”. A carta, que já tem mais de 700 mil assinaturas, é assinada pelo Movimento de Advogados de Direita (ADBR). Nesse caso das cartas-manifesto, a direita está ganhando da esquerda. É um joguinho para aquecer o ambiente. No final, os dois documentos dizem a mesma coisa. Todo mundo quer democracia e liberdade.  Com o título de “Manifesto à Nação Brasileira –  Defesa das Liberdades”, o documento da direita observa ser preciso conscientizar o povo para a realidade dos fatos e mostrar que não é somente uma elite dominante que ocupa posições de poder que pode definir, influenciar e impor sua visão tecnocrata de democracia, no dizer do advogado Paulo Maffioletti, um dos idealizadores do manifesto. Quer dizer, este é mesmo um país dividido mergulhado em densa escuridão.

Os advogados de direita dizem que a carta da Faculdade de Direito da USP representa o discurso único de uma elite de banqueiros, empresários e seus apoiadores políticos e da militância pró-Lula. O grupo afirma que existe atualmente no Brasil uma gravíssima tentativa da consolidação da ditadura do pensamento único. Observa que esses que elaboraram e assinaram a carta da Faculdade de Direito da USP vêm impondo a censura e desmonetização dos meios de comunicação independentes e de perfis de redes sociais dos brasileiros. Os advogados de direita repetem o que costuma dizer o presidente Bolsonaro: “A liberdade de escolha, de expressão e opinião está em xeque”. Lembram medidas do Supremo Tribunal Federal que atingem bolsonaristas, como a abertura do inquérito das fake news e, como exemplo, a ordem de prisão do deputado Daniel Silveira (PTB) por críticas que fez aos ministros da Corte. O tom da carta dos advogados de direita, como o da esquerda, revela que o tempo brasileiro das discussões ideológicas chegou ao máximo. Daqui para a frente ninguém sabe o que pode acontecer.

“A liberdade de expressão é o que permite o diálogo entre pontos de vista diferentes, inclusive os antagônicos”, diz o documento da direita. Observa que a esquerda acusa a direita de imputar a condição de incentivadores de atos antidemocráticos e de divulgadores de informações falsas. Diz, ainda, que uma pequena parcela da população detentora do poder não aceita críticas. A carta dos advogados diz significar “a nova independência do Brasil”. Afirma ainda que o povo é o único protagonista da carta e não sai em busca de nomes famosos, como fez a “outra”, que Bolsonaro chamou de “cartinha”. A carta dos advogados de direita termina dizendo “Deus seja louvado. Brasil acima de tudo”. E assim seguimos. Dizem os sábios que é sempre preciso seguir. Seguimos, é verdade, mas não sabemos para onde. O clima é de ódio. Brasileiro odiando brasileiro. O palco está preparado. Os personagens podem ocupar seus lugares e iniciar a peça que não vai ter final feliz.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.