Na Alemanha, advogados abandonam tribunais para atuar em empresas

Advogados e escritórios que atuam na Alemanha devem começar a se preparar para mudanças regulatórias na Lei Federal dos Advogados (BRAO, na sigla em alemão), que entra em vigor a partir de 1º de agosto.

As mudanças dão uma base legal segura para que escritórios de advocacia não pertencentes à União Europeia que operam na Alemanha também possam prestar serviços jurídicos no país.

Nicola ForenzaCresce número de mulheres advogadas na Alemanha

Outra novidade trazida pela lei será a possibilidade de formar parcerias com uma gama mais ampla de membros de outras profissões, como engenheiros, médicos ou farmacêuticos, bem como com advogados estrangeiros.

Mas o novo dispositivo legal não é o único assunto que permeia as discussões sobre advocacia no país. Quase todos os escritórios de advocacia estão preocupados com a crise de jovens talentos e a pressão de custos.

É o que aponta Marcus Young, editor de negócios do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, em artigo intitulado “A profissão de advogado está perdendo seu apelo” (em tradução livre), publicado nesta quarta-feira (22/6).

Com base em estatísticas recentes, o advogado e jornalista especializado em cobertura jurídica afirma que o perfil clássico do advogado alemão está mudando: enquanto o número geral de profissionais encontra-se em queda, cresce a participação feminina e o interesse por seguir por carreiras fora do tribunal e dos escritórios de advocacia.

De acordo com estatísticas de filiação do início de 2022 citadas por Young, a Ordem Federal dos Advogados na Alemanha registrou 165.587 mulheres admitidas como advogadas, um pouco menos do que em 2021.

O número de advogadas subiu para 60.057, o que corresponde a uma participação de mais de 36%. No entanto, segundo o autor da análise, se for subtraído o total de advogados internos e os advogados internos com dupla habilitação, existem 142.822 advogados com habilitação única — o que representa um decréscimo de mais de 1.900 profissionais em um ano, calcula o especialista.

Mais dinheiro no bolso

Pesquisadores da Universidade de Colônia, que examinam a profissão com estudos de longo prazo, calcularam que o número de advogados estabelecidos em toda a Alemanha caiu de 154.700 para 142.822 desde 2017.

“A queda de cerca de 7,7% não representa estagnação na perspectiva de longo prazo, mas sim uma queda clara”, analisa Young.

Salários atrativos na área de Direito Empresarial atraem jovens
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De acordo com o Instituto Soldan, organização alemã sem fins lucrativos que faz pesquisas jurídicas empíricas, a maioria dos advogados concorda que está se tornando cada vez mais difícil recrutar jovens para a advocacia.

Enquanto isso, cresce a quantidade de advogados da geração dos “baby boomers” (nascidos entre 1946 e 1964) que estão se aposentando devido à idade.

Segundo Young, “esse é um declínio que os jovens advogados plenamente qualificados no mercado jurídico já não conseguem mais compensar”.

Por outro lado, o artigo diz que os programas de graduação com foco em Direito Empresarial estão se tornando cada vez mais populares entre os alemães, com jovens deixando de buscar o diploma de direito tradicional e optando pelo bacharelado ou mestrado em Direito Empresarial.

O Instituto Soldan calcula que 20% de todos os ingressantes em faculdades de direito agora se especializam em Direito Empresarial ao invés de Direito.

As razões por trás dessas mudanças ainda estão em análise pelos pesquisadores. Mas Young aponta dois pontos que podem justificar parte dessa transição.

O primeiro deles é o fato de que as vagas para advogados comerciais em escritórios de advocacia e indústria, especialmente em gerenciamento de projetos e processos de massa, “expandiram-se consideravelmente” no país.

O segundo deles, talvez o principal, é mais óbvio: o salário. “Em escritórios de advocacia menores, os jovens advogados, embora qualificados, às vezes ganham significativamente menos”, aponta Young.