Morte de cidadão preto em supermercado no RS completa 3 meses: ‘Aquela noite não trouxe zero de bom’, diz esposa | Rio Grande do Sul

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A juíza Cristiane Busatto Zardo, da 2ª Vara do Júri, explica que o processo está na temporada de citação dos réus. As seis pessoas que respondem por homicídio triplamente qualificado devem ser citadas e apresentar resposta à denunciação. Só depois será marcada a audiência.

  • Caso João Alberto: veja perguntas e respostas

Enquanto isso, a viúva de João, Milena Borges, de 41 anos, procura olvidar aquela noite. Nesta quinta-feira (18), os advogados dela se reuniram pela internet com os representantes do Carrefour para tentar um entendimento extrajudicial.

A família pretende recitar uma indenização por danos morais e outra por danos materiais, que seria uma pensão mensal vitalícia.

“Que paguem pelo que fizeram! Podiam só ter contido ele. Aquela noite não trouxe zero de bom”, lamenta Milena.

Conforme o jurisconsulto Carlos Alberto Barata Silva Neto, que representa a família, houve um progresso nas negociações, mas ainda não chegaram a uma definição. Um novo encontro deve ocorrer na próxima quarta (24).

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Por meio de sua assessoria de prensa, o Carrefour informou exclusivamente que “a empresa segue oferecendo suporte social, psicológico e financeiro à família e vem avançando nos acordos com os advogados”.

João e Milena pretendiam oficializar o conúbio no cartório — Foto: Registo Pessoal

Convenção com Carrefour segue indefinido

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Três meses não bastaram para recolocar normalidade nos dias de Milena. No período em que estaria celebrando os primeiros meses de conúbio, já que uma cerimônia para oficializar o relacionamento de nove anos estava prevista antes do delito, a cuidadora de idosos precisou cuidar de si.

“Eu tinha uma rotina normal e, agora, é dissemelhante, porque não consigo trespassar, trabalhar. Tomo medicação, coisa que não tomava. À noite, para mim, é complicado”, diz Milena.

Milena e a filha Stephanye, de 21 anos, voltaram a morar com os pais. Ela recorda do jeito jovial e expansivo do companheiro, mas afirma que sente falta mais ainda da postura determinada de João Alberto.

“Ele que tomava a frente de tudo, conversava bastante, era malsofrido. Sinto falta que ele liderava tudo. Ele que ia remunerar as contas, ele que sabia o que comprar”, relembra Milena.

Por enquanto, a empresa custeia um comitiva psicológico e psiquiátrico. Eles enviam um valor mensal para que Milena pague suas consultas médicas.

“A Milena está em depressão severa, segundo a psiquiatra. Não sai de vivenda. Quando sai, sai com alguém, porque tem susto de trespassar”, afirma o jurisconsulto. “Qual caso que houve morte por sufocamento na frente da esposa, dentro de um hipermercado de uma multinacional, gritando pelo nome da esposa e pessoas agarrando ela e não deixando ajudar? A gente tenta explicar que é um caso sui generis, uma exceção”, acrescenta Carlos Alberto.

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Câmera de segurança mostra início da confusão antes do assassinato brutal de João Alberto

4 min Câmera de segurança mostra início da confusão antes do assassínio brutal de João Alberto

Câmera de segurança mostra início da confusão antes do assassínio brutal de João Alberto

Câmera de segurança mostra início da confusão antes do assassínio brutal de João Alberto.

Réus encaminham resguardo e aguardam audiência

A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público um mês depois do delito e os seis envolvidos na morte de João Alberto viraram réus por homicídio triplamente qualificado.

O ex-policial militar temporário Giovane Gaspar da Silva e Magno Braz Borges, os dois seguranças autores das agressões, seguem presos. Por enquanto, a resguardo de Magno encaminhou seis testemunhas e a de Giovane, oito.

O jurisconsulto David Leal, que defende o ex-PM, conta que ele faz cursos e estuda na prisão, sonhando em voltar a viver com a família. Para o protector, o tratamento oferecido ao caso teve influência política que interferiu no processo.

“O caso adotou uma proporção que colocou agentes públicos a serviço do clamor social, que não é o critério correto a ser adotado no caso de prisão no curso do processo. Giovane foi um cabrão expiatório para demandas sociais e concretamente o oportunismo político foi a prova clara de uma razão cínica presente nos postos de poder que pouco querem fazer pelos seus representados, mas que só pensam nas suas próprias carreiras”, criticou Leal.

'Sem cena, tá? A gente te avisou da outra vez', diz segurança para João Alberto
'Sem cena, tá? A gente te avisou da outra vez', diz segurança para João Alberto

1 min ‘Sem cena, tá? A gente te avisou da outra vez’, diz segurança para João Alberto

‘Sem cena, tá? A gente te avisou da outra vez’, diz segurança para João Alberto

Imagens foram obtidas pelo site GauchaZH João Alberto foi imobilizado e espancado na garagem do supermercado Carrefour da Avenida Plínio Brasil Milano.

Adriana Alves Dutra, fiscal da loja que acompanhou os seguranças enquanto eles agrediam João, recebeu prisão domiciliar. A Justiça reconheceu que a prisão temporária deveria ser convertida em preventiva, mas, diante do quadro de doença crônica apresentado pela resguardo de Adriana, foi convertida em domiciliar.

Rafael Rezende e Kleiton Silva Santos, funcionários da loja, e Paulo Francisco da Silva, que atuava na empresa de segurança terceirizada Vector, respondem ao mesmo delito em liberdade. O Ministério Público recorreu da soltura deles, mas as defesas alegam que eles não promovem risco de fuga ou adulteração das provas da investigação.

Conforme o jurisconsulto Márcio Hartmann, que defende Kleiton, a equipe prepara o contraditório e já encaminhou uma resguardo preparatório.

“O Kleiton não participou do delito de homicídio, ele exclusivamente ajudou a sustar a vítima, que estava em luta corporal com os demais acusados, e fez isso porque recebeu ordens de seus superiores. No momento em que a vítima faleceu, o Kleiton não estava mais no lugar. Estava trabalhando na loja”, afirma.

O jurisconsulto Renan Jung, que representa Paulo Francisco, também defende que o segurança não teve participação determinante no delito.

“Paulo foi chamado via rádio, seguindo ordens de seus superiores hierárquicos, e chegou ao lugar dos fatos já ao final do desenrolar de toda a situação. Em momento qualquer agrediu ou mesmo tocou a vítima, exceto quando foi verificar seus sinais, a termo de prestar os primeiros socorros”, afirma.

G1 tentou contato com as defesas de Magno Braz Borges e Adriana Alves Dutra, mas, até a publicação desta reportagem, não havia obtido resposta.

Manifestação pede justiça por João Alberto em frente a unidade do Carrefour em Porto Alegre, no dia 23 de novembro de 2020.
Manifestação pede justiça por João Alberto em frente a unidade do Carrefour em Porto Alegre, no dia 23 de novembro de 2020.

1 min Revelação pede justiça por João Alberto em frente a unidade do Carrefour em Porto Jubiloso, no dia 23 de novembro de 2020.

Revelação pede justiça por João Alberto em frente a unidade do Carrefour em Porto Jubiloso, no dia 23 de novembro de 2020.

A morte de João Alberto Silveira Freitas em uma unidade do supermercado Carrefour, em Porto Jubiloso, gerou protestos pelo quarto dia seguido. No termo da tarde desta segunda-feira (23), manifestantes se reuniram em frente à unidade do bairro Partenon — 7km distante daquela em que aconteceu o delito — e saíram em passeata pela Avenida Bento Gonçalves.

Tanto no interrogatório da Polícia Social porquê na denúncia do Ministério Público o delito de racismo não foi tipificado criminalmente. No entanto, para a polícia e para os promotores, a indiferença com o sofrimento de João Alberto, enquanto era asfixiado, denota uma teoria de racismo estrutural.

A delegada Roberta Bertoldo considerou no interrogatório que “a exacerbação das agressões impostas à vítima, em oferecido momento subjugada por seis pessoas, decorre de sua fragilização socioeconômica”. Portanto, qualificou o homicídio por motivo torpe devido à “conduta discriminatória, desumana e degradante em relação à vítima”.

Renan Jung, jurisconsulto de Paulo Francisco, um dos réus, rejeita essa possibilidade e afirma que irá utilizar dos meios legais para que a denúncia seja rejeitada e Paulo não responda ao processo.

“Paulo é pessoa negra, sua esposa é negra, seus filhos são negros, seus familiares são negros, seus melhores amigos são negros, sendo, portanto, absurda a denunciação por, supostamente, dar desculpa a um homicídio motivado pelo racismo, cujas autoridades que o acusam são, em totalidade, de cor branca, e que agora, ao que parece, para buscar reconhecimento da mídia e autopromoção, desejam enclausurar mais um preto nas masmorras do nosso falido sistema penitenciário”, concluiu.

Protestos contra a morte de João Alberto foram registrados em várias cidades do país — Foto: Bárbara Roble/GloboNews

O filósofo e jurisconsulto Sílvio de Almeida, que foi citado no relatório do indiciamento por sua tese a saudação do racismo estrutural, considera que houve progresso com a menção a essa possibilidade.

“Em outros tempos, isso sequer teria sido objeto de consideração pelas autoridades. O fenômeno do preconceito é institucional e estrutural e, portanto, muito mais difícil de ser enfrentado do que se supõe e as autoridades ficam limitadas a agir dentro dos contornos que o próprio Recta estabelece para o tratamento da questão”, disse, em entrevista ao G1, em dezembro.

Para Milena, que assistiu à morte do companheiro, houve racismo. “Eu acredito que foi vítima de racismo, sim, porque teve outras pessoas negras que foram destratadas ali”, diz a viúva de João.

O Carrefour afirmou, em nota, que “repudia veementemente todo e qualquer ato de violência e reforça que naquela ocasião rompeu imediatamente o contrato com a empresa Vector toda a segurança de loja das unidades de Porto Jubiloso foi internalizada e todos os envolvidos foram desligados”.

“Desde o termo de 2020, o Carrefour reforçou as ações de combate ao racismo e assumiu publicamente diversos compromissos para aprimorar suas políticas e práticas antirracistas em toda sua calabouço, promover a curso de pessoas negras dentro do Carrefour e a inclusão social de negros e negras no mercado de trabalho. Com isso, a companhia vem implementando mais de 50 iniciativas, que envolvem colaboradores, parceiros, fornecedores e toda a sociedade. O projecto de ação foi elaborado junto ao Comitê Extrínseco que se formou imediatamente depois o caso e dos quais objetivo é assessorar, de maneira livre e independente, a companhia e seguir o desenvolvimento de iniciativas”, conclui a nota.

No início do mês, o Carrefour lançou um site com o detalhamento das ações que estão sendo implementadas pela rede em combate ao racismo estrutural no Brasil.

Enterro de João Alberto, em Porto Jubiloso, no dia 21 de novembro. — Foto: REUTERS/Diego Vara

MORTE DE JOÃO ALBERTO EM SUPERMERCADO DE PORTO ALEGRE

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