Leonardo Chagas: O estudante e o estágio em escritório

Um bom estágio é, sem sombra de dúvidas, a garantia de um acesso facilitado ao mercado de trabalho. Os aprendizados, o networking e os obstáculos superados por um estagiário podem ser os diferenciais que abrem portas para um jovem advogado em início de carreira.

Neste artigo abordaremos as vantagens de um bom estágio para aqueles que almejam o exercício pleno da advocacia quando formados e devidamente habilitados nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil.

A teoria estudada nos bancos acadêmicos somados com a aplicação prática, quando bem administrado, pode tornar-se um poderoso instrumento propulsor de talentosos profissionais do direito.

É verdade que em boa parte das universidades do brasil, as grades curriculares dos cursos de direito não direcionam os universitários para a advocacia, colocando em caminhos iguais os pretensos candidatos aos diversos concursos de carreiras jurídicas com aqueles que por vocação/opção escolhem a advocacia.

Assim, cada vez mais, aquele que vislumbra seguir com a advocacia, deve aprimorar-se, acumular boa bagagem teórica e conquistar espaços em escritórios, para desde cedo, diferenciar-se em meio a tantos e destacar-se em uma das profissões mais apaixonantes de todos os tempos.

Já dizia Rui Barbosa em seu discurso escrito para a turma de formandos de 1920 da Faculdade de Direito de São Paulo: “Tomai exemplo, estudantes e doutores, tomai exemplo das estrelas da manhã e gozareis das mesmas vantagens: não só a de levantardes mais cedo a Deus a oração do trabalho, mas a de antecederdes aos demais, logrando mais para vós mesmos e estimulando os outros a que vos rivalizem no ganho bendito”.

Vamos juntos levantar mais cedo, vamos discutir, vamos aprender, vamos sonhar e vamos realizar! Vamos antecederdes aos demais, que em verdade verá no seu esforço, exemplo! Nas suas vitórias, esperança! A carreira de sucesso de um advogado começa muito antes da aprovação no exame de ordem, começa nos bancos da academia, nos corredores do conhecimento, nas batalhas travadas, nas trincheiras de lutas democráticas estabelecidas. A cada um que ler esse artigo, o meu mais sincero desejo de sucesso!

Estágio em escritório de advocacia, vale apena?
Antes mesmo de iniciar a sua trajetória universitária, todos deveriam estar convictos do caminho escolhido, da importância de escolher uma profissão por vocação e não apenas por oportunidade e/ou conveniência. Não será diferente quando for chegado a hora de iniciar um estágio em escritório de advocacia.

Neste capitulo não vamos tratar do estágio curricular, nem tampouco dos diversos tipos de estágios extracurriculares como aqueles ofertados em delegacias, fóruns, repartições públicas dentre outros, mas somente vamos tratar da oportunidade de um estudante de direito procurar pôr em prática o conhecimento adquirido nos bancos acadêmicos por meio de uma vivência na rotina de um escritório.

Aos pretensos candidatos ao estágio que discutimos neste artigo, duas perguntas devem emergir e provocar reflexão, são elas:

1) Já existe a certeza da escolha da advocacia como profissão?

2) O conhecimento teórico apresentado até o momento suportará os desafios de um estágio extracurricular?

Muitas outras reflexões devem ser feitas, mas talvez estas sejam aquelas que devem ser resolvidas antes mesmo de sair a procura do tão sonhado estágio. É que, apenas por um descuido ou despreparo do ansioso universitário, a experiência do primeiro contato com o mercado de trabalho pode ser traumatizante e tornar-se uma frustação.

Ter a convicção da escolha da advocacia como futura profissão não é tão simples quando um emaranhado de novas emoções e conhecimentos tomam conta de um jovem universitário. Mas como nosso foco aqui é preparar estudantes de direito a buscar seu primeiro estágio em escritórios de advocacia e fazer o proveito correto desta oportunidade, é importante saber se realmente este é o caminho a ser trilhado.

O estágio extracurricular, neste caso, propõe suprir uma certa deficiência das universidades. A maioria dos cursos de direito não preparam o acadêmico para a advocacia, mas os tornam bacharéis em direito que optam por concursos públicos ou por prestar o exame da ordem e, com a aprovação, iniciar sua trajetória na advocacia.

Com a certeza da escolha pela advocacia, um estágio como este será um dos melhores investimentos que o futuro advogado pode fazer enquanto estudante. A importância é tamanha que ser um estágio remunerado ou não remunerado pode tornar-se insignificante quando analisado todo o contexto.

Superado a primeira reflexão e já com a certeza da escolha pela advocacia, um momento para a segunda reflexão a ser feita pelo jovem universitário: “Já existe conhecimento teórico conquistado no curso de Direito?”. Como dito anteriormente, estágio extracurricular é a oportunidade de pôr em prática o conhecimento já adquirido e sendo assim, este conhecimento deve existir! Insistir em iniciar um estágio sem a bagagem necessária é como tentar pular de paraquedas sem ter um paraquedas, o final sempre será trágico!

Ter conquistado conhecimento nas disciplinas curriculares é sem sombra de dúvidas, a maior conquista que um universitário pode ter na sua jornada acadêmica! De nada adiantaria ser aprovado nas diversas disciplinas ofertadas pelo curso se em verdade, o conhecimento não estiver sendo acumulado.

E não vamos tratar esta reflexão como uma verdade absoluta, por óbvio, o estudo do direito é dinâmico e se transforma, a busca do conhecimento é constante e se fará determinante até mesmo quando no exercício pleno da advocacia. Mas o destaque do momento é para as oportunidades que se abrem na mente do aprendiz quando se pratica a busca constante do aprofundamento dos temas apresentados na academia.

Não se trata de saber tudo que existe no ramo do direito, mas sim de saber reconhecer a importância de ter verdadeiramente o anseio do conhecimento. Nenhum minuto deve ser desperdiçado quando a rotina é de apresentação de conhecimentos. Mal sabem aqueles que pensam diferente que se não aprenderem com os que querem te ensinar, aprenderão com aqueles que por algum motivo se preparou melhor, cruzou o seu caminho e por óbvio, restará vitorioso, talvez na conquista de uma vaga de estágio, talvez em meio à uma disputa judicial.

Ora, se for para existir o fracasso, que este venha na construção (vida acadêmica), visto que ainda há tempo para consertar os erros e seguir com os aprendizados. Após a conclusão da formação, qualquer erro poderá ser muito mais cruel e, sem sombra de dúvidas, a dificuldade do inicio da advocacia pode ser o suficiente para uma vertiginosa lamentação daquele que não buscou o conhecimento necessário e que poderia ter “investido” seu tempo em uma boa vivência prática extracurricular, mas deixou o tempo passar e viu-se sem oportunidades.  

Valer apena ou não é questão de escolha de cada estudante. Tudo depende de onde cada um quer chegar. Mas, sem sombra de dúvida, para àquele que escolherá os caminhos da advocacia, essa resposta é uníssona e não há justificativa para assim não ser.

Estágio remunerado x estágio não remunerado
Sem sombra de dúvida, o objetivo de um estagiário nunca poderá concentrar-se na remuneração ofertada. Um bom estágio e uma boa remuneração é o que todo candidato a estagiário procura, mas que fique claro: mais vale um bom estágio não remunerado que sirva de mola propulsora na sua vida profissional que um “estágio remunerado” que desvie sua finalidade e distancie o estagiário da vivência pratica deste em um escritório.

E agora estamos diante de dois interesses  estagiário / escritório  que quando convergem em sentido único configuram uma parceria de sucesso e quando se distanciam configuram um fracasso que representa frustação tanto para quem abre as portas de seu escritório, quanto para quem almeja pôr em prática o conhecimento teórico já adquirido.

Talvez o estagiário pense que todo e qualquer atividade direcionada a ele deveria servir para o seu interesse pessoal, mas em verdade, uma das maiores virtudes de um estagiário se dá na aceitação do marco temporal em que vive e que naquele momento, a condução de seu aprendizado deve render-se a quem o supervisiona, desde que esse o faça de forma justa e leal.

Não são poucas vezes que o estagiário sente-se distante do glamour propagado nos primeiros anos da vida acadêmica e percebe que a vida prática de um advogado de sucesso jamais será apenas de aparências e personagens de sucesso. Ter a oportunidade de vivenciar a rotina de um escritório e aproximar-se dos associados é algo que vai muito além da formulação de uma boa petição.

Agora o estagiário pode observar de perto as dificuldades enfrentadas diariamente naquele ciclo profissional, desde a captação de clientes, o atendimento destes e a organização dos afazeres internos de um escritório, o qual não se engane, por muitas vezes assemelha-se a uma empresa. E cada um desses momentos tem uma importância gigantesca para quem pleiteia um dia exercer a advocacia e talvez gerir o próprio escritório.

Por tudo isto e muito mais que nos faria redigir inúmeras páginas, o estagiário deve entender que ter e aproveitar uma boa oportunidade de aprendizado não remunerado não é e nunca será motivo de desabono. E que por igual, o contratante deverá refletir a real importância de ter consigo um mecanismo de alta potencialidade que lhe garanta novos valores e missões em seu escritório de advocacia.

Nunca será um cálculo fácil e perfeito, o senso de justiça e ética deverá prevalecer neste momento. A precificação de uma bolsa de estágio deve garantir em pecúnia as formas necessárias para o estagiário produzir o suficiente para viabilizar afazeres estratégicos e ao mesmo tempo adquirir a experiência almejada.

Já na introdução deste artigo afirmamos que ocupar uma dessas vagas de estágio é um dos melhores investimentos que um acadêmico em direito que decidiu no futuro próximo exercer a advocacia pode fazer, se não o melhor! Reafirmamos para que mais uma vez se reflita sobre a importância do que estamos discutindo.

Em números, que tal multiplicar o valor da melhor bolsa de estágio ofertada por um escritório de advocacia da sua região por vinte e quatro vezes (número máximo de meses que entendemos ser ideal para uma vaga de estágio)? O valor alcançado poderá ser insignificante em comparação ao faturamento mensal de um bom profissional em início de carreira que alicerçou seus passos profissionais com conhecimento e vivência extracurricular.

Não vamos esquecer que um país continental como o nosso traz profundas marcas de desigualdades sociais e a busca de uma remuneração, por menor que seja, faz toda a diferença na vida de alguns estudantes, mas o que se propôs a ser discutido neste capitulo não corresponde à essa triste realidade, mas visa trazer a discussão às inúmeras chances que são ofertadas e desperdiçadas diariamente, notoriamente por aqueles que não enxergam o afunilamento das oportunidades e a proximidade da virada de chave que acontece na vida de um recém formado, que após a aprovação no exame de ordem inicia sua carreira profissional na advocacia privada.

Assim, não há o que se temer, a vida nos impõe caminhos e a escolha do melhor caminho é de responsabilidade exclusivamente nossa. Trilhar a melhor rota é a garantia de bons tempos, trilhar caminhos espinhosos é, talvez, fruto de escolhas equivocadas que nos fazem retornar e caminhar pela segunda vez em um novo roteiro. Portanto, cabe a você, caro leitor, analisar e recusar ou não qualquer vaga de estágio, seja ela remunerada ou não.

Metas
O que de fato deve o acadêmico buscar em um estágio em escritório de advocacia?

Cada ser humano é dotado de inteligência e possui peculiaridades. Em verdade, não podemos discorrer sobre esse tema de forma absoluta, por tal razão buscaremos responder este questionamento sob o olhar do senso comum.

Bons relacionamentos
Sem sombra de dúvida, os relacionamentos profissionais encontrados durante um estágio trará ao aprendiz oportunidades que o colocará um nível a frente daqueles que não investiram dessa forma.

Na advocacia não há mais espaço para aqueles que pretendem advogar de forma plenamente individual. Mesmo aqueles que não formam sociedades e não advogam em grandes bancas de advogados, necessitam relacionar-se com colegas de profissão, somando-se e superando obstáculos que sozinhos talvez não conseguisse superar.

A evolução desta profissão encaminha a todos para as especialidades e, por isso, é muito difícil que um advogado seja conhecedor e pratique uma advocacia de excelência em todos os ramos do direito. Então, nada mais justo que ter por perto especialistas nas áreas em que o advogado não domine. Surge então a necessidade, cada vez maior, de bons relacionamentos com colegas das diversas áreas.

Ter a oportunidade de construir essas oportunidades e parcerias, ainda enquanto estudante, traz sem sombra de dúvida segurança e conforto, especialmente nos primeiros anos de advocacia. Por isso, uma das metas de um estagiário deve ser conquistar bons relacionamentos profissionais o quanto antes puder e tiver oportunidade.

Claro que enquanto estagiário a meta não será parcerias, lembrem-se, o estagiário ainda não é advogado e cada fase vivida tem a sua importância. Acontece que, na mudança de chave já citada neste artigo o estagiário que conquistou a confiança de vários profissionais terá facilidade em formular parcerias e intercâmbios de conhecimento, superando dificuldades e obstáculos de forma infinitamente mais fácil e rápida.

Vivência pratica das teorias
Quando falamos em por em pratica as teorias que estudamos nos bancos da universidade, falamos também que enquanto estagiário, existirá uma supervisão para apontar erros e acertos. Então, este momento é propicio ate mesmo para erros, visto que como bem diz o ditado: “é errando que se aprende”.

Aprender no exercício da advocacia é extremamente perigoso, pois a relação cliente advogado não permite falhas e a existência destas pode levar a carreira profissional de um advogado para caminhos não desejáveis.

A contextualização da problemática (caso) apresentado ao operador do direito e a ligação com a solução a ser apresentada é, também, exercício continuo de pratica e busca incessante pelo conhecimento. Praticar essas experiências ainda enquanto estudante é uma das tarefas mais difíceis, porém, necessárias para aqueles que querem advogar.

Não há que se questionar sobre a importância desta vivencia para os acadêmicos em direito. É ousado, porém assertivo, afirmar que todos os estudantes de direito que pretendem advogar deveriam continuamente por em pratica os conhecimentos conquistados.

O Exame da Ordem dos advogados do brasil tenta mensurar esse preparo, mas cabe um exame de consciência para o estudante que sabe muito da teoria, mas deixa a desejar na vivencia pratica da profissão. Será mesmo um bom advogado aquele que for nota 10 em teorias e não possuir a sensibilidade necessária inerente a um advogado?