Elizabeth Holmes: a ‘cultura de fingimento’ que favorece escândalos no Vale do Silício – 09/01/2022 – Mercado

Durante anos, Elizabeth Holmes foi a queridinha do Vale do Silício e uma pessoa acima de qualquer suspeita.

A Theranos, startup fundada por ela, atraiu centenas de milhões de dólares em investimentos.

Só que a empresa se sustentava em uma ciência fantasiosa. A tecnologia produzida pela Theranos–de supostamente testar centenas de doenças a partir de uma gota de sangue– parecia inacreditável. E era.

Milhões de dólares foram desperdiçados no processo, e usuários dos testes de sangue, incluindo um paciente com câncer, disseram ter sido vítimas de diagnósticos equivocados.

Agora, anos após o colapso da Theranos, Holmes foi condenada pela Justiça da Califórnia, por fraude eletrônica e conspiração para fraude.

Olhando de fora para dentro do Vale do Silício, a história de Holmes parece não fazer sentido. Como é possível que tantas pessoas tenham sido iludidas?

No Vale do Silício, muitos creem que a Theranos está longe de ser uma aberração e representar problemas sistêmicos com a cultura de startups.

‘Fingir até chegar lá’

No Vale do Silício, gerar interesse em torno de seu produto –ou exagerar nas promessas– não é incomum, e Holmes era particularmente boa nisso.

Ex-aluna da Universidade de Stanford (faculdade que não chegou a concluir), ela era articulada, confiante e eficaz em apresentar sua visão –ou missão, como ela chamava– de revolucionar diagnósticos médicos.

Especialistas mais céticos diziam que sua ideia era apenas isso –uma ideia– e não funcionaria.

Mas ela projetava uma confiança inabalável de que sua tecnologia mudaria o mundo.

“É algo inserido na cultura”, afirma Margaret O’Mara, autora de The Code: Silicon Valley and the Remaking of America (em tradução livre, “O Código: Vale do Silício e a Reinvenção da América”).

“Se você é uma startup em desenvolvimento –com um produto que ainda mal existe–, uma certa quantidade de molejo e agitação é esperada e encorajada”, explica.

Particularmente nos estágios iniciais da startup, investidores geralmente estão de olho nas pessoas e suas ideias, mais do que na tecnologia em si. A sabedoria convencional reza que a tecnologia eventualmente chegará com o conceito certo –e as pessoas certas.

Holmes era brilhante em vender seu sonho, exercitando uma prática comum no Vale do Silício: “Finja até chegar lá”, até alcançar o estágio desejado (em inglês, “fake it until you make it”).

O problema é que ela não conseguiu fazer a tecnologia funcionar. Seus advogados argumentam que Holmes era uma mera mulher de negócios que fracassou, mas não uma fraudadora.

Mas, no Vale do Silício, é tênue a linha entre a fraude e a mera cultura de fingimento.

“Theranos foi um sinal de alerta de uma mudança cultural no Vale do Silício, que permitiu que pilantras e promoters prosperassem”, afirmou o investidor Roger McNamee, que não investiu na empresa e é um crítico das grandes empresas de tecnologia.

Ele acredita que a cultura de segredos e mentiras no Vale do Silício, a qual permitiu que a Theranos seguisse adiante sem passar por escrutínio, é “totalmente endêmica”.

A ambição pode ser positiva: prometer um futuro próspero e tentar concretizar essa visão é o que levou à criação de itens como computadores e smartphones.

Mas, para investidores, tentar distinguir entre charlatões e revolucionários é um desafio constante, que pode significar enriquecimento ou perda de dinheiro.

Em agosto de 2021, Manish Lachwani, presidente e fundador da HeadSpin, startup de telefonia, foi preso sob acusação de fraudar investidores.

Segredos

Propriedade intelectual é algo bastante protegido no Vale do Silício. A “receita de sucesso” de uma empresa costuma ser o que lhe dá valor, e empresas jovens de tecnologia são especialmente sensíveis a terem suas ideias roubadas ou copiadas.

O segredo é importante para essas empresas terem sucesso –mas a cultura em torno disso também pode ser usada como cortina de fumaça, particularmente quando empregados e investidores não entendem (ou não tem acesso à) tecnologia envolvida.

Foi o que aconteceu na Theranos. Jornalistas, investidores, políticos ou quem quer que fosse ouviram da empresa que a ciência por trás dos exames médicos existia. No entanto, quando a empresa era questionada a respeito dos meandros de sua tecnologia, dizia que se tratava de um segredo que não poderia ser plenamente explicado, analisado ou testado.

A rede farmacêutica Walgreens, um grande cliente da Theranos, ficou exasperada com a falta de informação dada pela empresa a respeito de como seus exames funcionavam.

Há muitas empresas no Vale do Silício que não explicam com precisão sua tecnologia, alegando que seus sistemas não podem ser revelados ou revisados por cientistas de fora.

O sistema é baseado na confiança, o que cria o ambiente perfeito para escândalos como o da Theranos.

‘Táticas da CIA’

Um sistema que põe tanta ênfase no segredo requer advogados, muitos deles. Afinal, as empresas não querem que seus funcionários levem ideias embora. Acordos de sigilo (NDAs, na sigla em inglês) são endêmicos no mundo das startups, mesmo nas empresas que não são de tecnologia.

Isso dificulta a ação de eventuais informantes, que possam contar os meandros dos negócios no caso de estes terem irregularidades.

No caso da Theranos, depois que a empresa colapsou, funcionários relataram terem sofrido intensa pressão para recuar de comentários públicos negativos ou para se calar. A empresa contratou advogados agressivos, caros e ativos para proteger sua reputação.

Não é algo incomum no Vale do Silício, afirma Cori Crider, do Foxglove, grupo que ajuda informantes a virem a público.

“Passei mais de uma década trabalhando em segurança nacional (nos EUA), e com frequência vejo esse pessoal do Vale do Silício usar táticas do manual da CIA nessas questões”, ela diz.

“Eles amedrontam as pessoas e as fazem pensar que não têm o direito de trazer à tona questões legítimas.”

No caso de fundadores ou executivos-chefes estarem sendo desonestos a respeito de seu produto, é preciso que funcionários tenham a possibilidade de soar o alarme. E, muitas vezes, eles não se sentem confortáveis para fazer isso.

Ingredientes para um escândalo

Parece fácil esquecer que muitos investidores olharam para a Theranos e deixaram de lado a ideia de investir na empresa –em especial, os investidores com conhecimento de cuidados em saúde.

Já entre os investidores mais conhecidos da empresa estão pessoas e grupos de fora dessa área, como o magnata da mídia Rupert Murdoch.

Investidores com capital comumente decidem colocar seu dinheiro partindo da presunção de que os investidores iniciais fizeram a lição de casa ao avaliar a tecnologia da startup em questão.

“Eles meio que levam em conta a validação desses terceiros”, afirma O’Mara.

Mais uma vez, é um sistema baseado na confiança –investidores que entram depois confiam que os investidores iniciais sabiam o que estavam fazendo. O problema é que, com tanto dinheiro circulando, isso não é uma garantia.

No fim das contas, a Theranos foi pega. Em 2015, uma investigação do jornal The Wall Street Journal apontou que a Theranos só usava a tecnologia própria em uma minoria dos exames diagnósticos que realizava –e que a máquina de diagnóstico da empresa apresentava resultados inconsistentes, segundo ex-funcionários.

Na época, a empresa era avaliada em US$ 9 bilhões, prometia testes diagnósticos de 240 tipos –de colesterol a câncer–, e Elizabeth Holmes era comparada ao fundador da Apple Steve Jobs.

Com tantas empresas no Vale do Silício oferecendo ideias supostamente novas e revolucionárias em campos menos regulados que o da saúde, o escrutínio é menor do que no caso da Theranos.

Hoje, a cultura do “finja até chegar lá” permanece viva e vigente –e o mesmo pode ser dito da cultura de segredos e uso agressivo de acordos de confidencialidade para empregados.

É um modelo que tem vantagens, ao ajudar a fomentar empresas extremamente valiosas e inovadoras. Mas que também tem todos os ingredientes para levar a novos escândalos semelhantes ao da Theranos.