é hora de investir ou fugir das criptomoedas?

Na semana passada, o preço do bitcoin caiu e trouxe medo aos investidores, que passaram a questionar a possibilidade de novas e repetidas quedas da criptomoeda. A unidade do bitcoin abriu o ano de 2022 em US$ 47,7 mil. Mas já em 20 de janeiro foi a US$ 40,6 mil e encerrou esta quarta-feira (26) em US$ 37,2 mil.

Diante dessa desvalorização, é o momento de abandonar as criptomoedas ou investir nelas? E o que tem influenciado a queda da mais famosa moeda digital do mundo? Analistas consultados pelo UOL deram suas visões sobre o assunto e indicam quais atitudes o investidor deve tomar.

Para analistas consultados pelo UOL, não se trata de algo estrutural, mas de um movimento influenciado pelas dúvidas sobre a retomada da economia global, em função da variante ômicron da covid-19 e a respeito das discussões da alta dos juros pelo Fed (Federal Reserve), o Banco Central americano, como forma de conter a disparada da inflação no país.

Por que o bitcoin está caindo?

Quando um Banco Central aumenta os juros do país, é normal que investidores retirem uma parte do dinheiro aplicado em renda variável e aplique em opções consideradas mais seguras em momentos de sobe e desce, como a renda fixa.

Esse cenário tem ocorrido em relação ao Fed (Federal Reserve), considerado o Banco Central americano. Por sua vez, esse movimento faz com que menos pessoas apliquem nas ações dos EUA —como na Bolsa de Nova York e a de tecnologia Nasdaq— e evitem ativos de alto risco —como o próprio bitcoin.

Para o sócio-fundador da fintech de investimentos Vitreo, George Wachsmann, justamente a piora do cenário macroeconômico nos EUA e a consequente reação nos índices locais, como a Nasdaq, foram os principais motivos para a queda da moeda digital.

A aversão a risco no mercado tradicional se espalhou também para cripto e puxou a correção. Isso, aliado ao fato do bitcoin ter perdido um patamar importante de preço, que é a faixa dos US$ 40 mil, empurrou ainda mais a cotação para baixo.
George Wachsmann, sócio-fundador da Vitreo

Abandonar navio ou mergulhar no bitcoin?

Wachsmann acredita que o criptoativo deve acompanhar o ritmo das Bolsas no exterior. Antes de uma retomada, novas quedas devem acontecer —o que faz o especialista acreditar que o preço do bitcoin pode bater entre US$ 28 mil e US$ 30 mil. No entanto, é possível uma estabilidade entre US$ 30 mil e US$ 35 mil por um período maior. “Mas isso vai depender muito do apetite [do investidor] a risco global”, afirma.

Raquel Vieira, da casa de análises Top Gain, concorda: para ela, a criptomoeda ainda não chegou à sua faixa mínima de preço. A especialista em criptomoedas lembra, porém, que o bitcoin já é muito volátil normalmente, com variações que podem chegar entre 10% a 40% em uma mesma semana.

“Mas quando temos um cenário como o atual, com pandemia e aumento das taxas de juros, isso acaba complicando e traz essas quedas mais bruscas para o mercado”, diz Raquel.

Já Fernanda Guardian, analista da Levante Ideia Investimentos, traz outro ponto. Segundo ela, a desvalorização recente é resultado do alto número de investidores alavancados —ou seja, quando o investidor opera com um valor maior do que o disponível na sua conta, na perspectiva de maiores retornos.

“Quando isso acontece, podem ocorrer liquidações das pessoas que estavam apostando na alta, e o mercado tende a reagir na direção oposta, derrubando os preços”, afirma Fernanda.

Fernanda pondera que, apesar do bitcoin ser independente de agentes econômicos, se trata de um ativo financeiro de alto risco e que sofre muito sobe e desce, sensível às mudanças de perspectiva nas grandes economias, casos de EUA e China —como quando surgiram as notícias da falência da construtora Evergrande no país asiático.

Tendo algum estresse no sistema monetário que impacte ações, títulos públicos e commodities, é óbvio que o bitcoin também será impactado.
Fernanda Guardian, analista da Levante Ideia Investimentos

Vale comprar bitcoins em um momento instável?

Diretora de crescimento da gestora especializada em cripto Hashdex, Roberta Antunes reforça ser “natural” a queda do bitcoin neste momento, já que é comum os investidores deixarem ativos de risco, como as criptomoedas, e migrarem para a renda fixa.

Dessa forma, ela diz que os investidores devem se ater às questões estruturais para investir em criptoativos.

“O importante é entender que, no longo prazo, nada muda. Os fundamentos se mantêm: é uma classe de ativos super promissora, com projetos crescentes, a tecnologia continua evoluindo e há aumento da aderência”, diz Roberta.

Wachsmann, da Vitreo, entende que é interessante manter uma boa posição em caixa para aproveitar momentos de maior baixa da moeda digital.

Ele recomenda diversificar a carteira de investimentos com ativos que não estejam atrelados ao bitcoin. E, se for aplicar na moeda digital, realizar novas compras de forma parcial, como uma estratégia para ter um preço médio mais atrativo. Ele diz que o bitcoin deve ocupar até 5% do portfólio dos investidores.

Na opinião de Fernanda Guardian, da Levante, caso decida investir em criptoativos, o investidor deve avaliar o aspecto macroeconômico, manter o foco no longo prazo e não verificar os preços todos os dias.

“É pensar no que o bitcoin significa como dinheiro e se apegar a esses fundamentos. Se o investidor olhar apenas para preço e rentabilidade, não será suficiente para trazer tranquilidade em meio ao cenário volátil”, afirma.