Deltan articulou investida contra escritórios autorizada por Bretas

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A investida contra escritórios de advocacia autorizada em setembro do ano pretérito pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federalista do Rio de Janeiro, foi articulada pelo procurador Deltan Dallagnol, ex-coordenador da “lava jato” em Curitiba. 

Fernando Frazão/Sucursal BrasilProjeto de poder da “lava jato”, chefiada por Deltan Dallagnol, não se restringia só a Curitiba, porquê mostram os diálogos

Ao todo, 77 endereços ligados a escritórios, empresas e casas de advogados foram níveo de buscas e apreensões. A justificativa era a de que as bancas estavam desviando numerário do Sistema S por meio de contratos falsos com a Fecomercio do Rio de Janeiro. 

A denúncia do MPF fluminense, aceita por Bretas, começou de um modo curioso: uma mensagem enviada a Dallagnol por Thiago Prado, logo jornalista da Veja. A ConJur já havia noticiado o caso, mas não divulgou o teor da conversa.

“Deltan, bom dia. Eu tenho um material sobre porquê o Roberto Teixeira [então responsável pela defesa do ex-presidente Lula] ficou milionário com o sistema S (numerário federalista). Ele ganhou 18 milhões em 1 ano para defender para a fecomercio do Rio. O valor (tenho as notas fiscais) é paradoxal e não faz sentido diante das ações em que ele atuou. Interessa?”, perguntou o repórter ao procurador em 22 de março de 2016. 

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Dallagnol não respondeu e houve uma novidade tentativa por segmento do jornalista. Em 13 de abril de 2016, o procurador responde: “Interessa sim. Se puder falar comigo e desenvolver um pouco mais o raciocínio por telefone”. 

Porquê Dallagnol atua no Paraná, ele passou a proferir o bote contra a advocacia com o procurador Eduardo El Hage, do MPF fluminense. El Hage, que nas conversas tratava o gerente da “lava jato” curitibana porquê “ídolo”, assina a denúncia aceita por Bretas.

O principal níveo era o jurisperito Cristiano Zanin Martins, também jurisperito de Lula. Depois a pronunciação feita por Dallagnol, a delação de Orlando Diniz, ex-presidente da Fecomercio no Rio, impulsionou a investigação. O empresário, que já foi recluso duas vezes, tentava negociar um congraçamento com o MPF desde 2018. Em troca de ajudar a emparedar profissionais da advocacia, conseguiu manter no exterior contas com numerário de origem ilícita. 

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“São muitos escritórios e o que o Zanin recebeu é isso mesmo. Surreal. Roberto Teixeira também… Mas essas notas que saíram ontem nós não sabemos proveniência/verdade. Temos uma reunião com o jurisperito do Orlando Diniz hoje, marcada há qualquer tempo”, disse El Hage a Dallagnol em 13 de dezembro de 2018, muro de dois anos antes do cerco contra os escritórios. 

Ao oferecer a denúncia a Bretas no ano pretérito, o MPF disse que o Teixeira, Zanin, Martins Advogados recebeu numerário da Fecomercio mesmo sem ter prestado serviços para a federação. 

Uma auditoria independente, no entanto, atestou que a secretária trabalhou para a Fecomercio em centenas de processos. O escritório contratou a MGI SengerWagner Auditores Independentes para fazer a revisão dos pagamentos feitos pela federação e dos serviços jurídicos que constam nos sistemas de informática do escritório no período.

Em nota enviada à ConJur (leia íntegra no final do texto), o Ministério Público Federalista do Rio de Janeiro negou que o caso envolvendo a Fecomercio tenha nascido a partir de articulações feitas por Dallagnol.

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“As investigações em relação aos envolvidos na operação Esquema S foram iniciadas a partir da quebra de sigilo bancário de Adriana Ancelmo posteriormente a operação Calicute, quando foram verificados depósitos da Fecomercio com indícios de lavagem de numerário”, diz texto.

Ainda segundo a revelação, não houve por segmento da franquia do Rio “troca de informações ou compartilhamento de dados com qualquer outra investigação ou membros do MPF […] Pelos trechos apresentados não há nenhum indicativo de que Deltan tenha contribuído para a investigação, mesmo porque isso não aconteceu”.  

Tentáculos

Dallagnol sempre influenciou as forças-tarefa da “lava-jato” no Rio e em São Paulo. Novo diálogo ao qual a ConJur teve entrada mostra que o procurador articulou em 2018 um manifesto pela suspeição do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federalista, nos casos envolvendo a “lava jato”. El Hage também participou da conversa. 

“Caros precisamos fazer um pouco em relação a GM [Gilmar Mendes]. Acho que um bom início seria alguém fazer um estudo das decisões deles que mantiveram prisões antes da Lava Jato e DIRANTE [durante] a LJ em outros casos e mostramos INCOERÊNCIA. Assinamos todos os procuradores da LJ […] Das três FTS [forças-tarefa]”, disse Dallagnol, em referências às franquias de Curitiba, Rio e SP. 

“Alguém depois joga online, uma entidade, e faz inferior assinado pela suspeição dele noss casos da LJ”, prossegue o gerente da “lava jato” em Curitiba. 

El Hage responde: “Eu acho ótimo! Já tinha pensado nisso também. O problema é a falta de tempo para a pesquisa. Estamos mega atolados cá no Rio”. 

Conversas recentes já tinham mostrado que a influência da “força-tarefa” em Curitiba não se restringia ao Paraná. Dallagnol, por exemplo, sabia sobre o curso de processos da “lava jato” no Supremo Tribunal Federalista, em Brasília, e informava o ex-juiz Sergio Moro sobre isso. Procuradores de primeira instância não atuam junto ao Supremo. 

Também já havia sido demonstrado que Dallagnol coordenou outros estados e que os procuradores em Curitiba davam pitaco até sobre denúncias feitas pelo Ministério Público de São Paulo. 

Escritórios

As investidas contra os advogados de Lula não são novidade. O ex-juiz Sergio Moro já havia autorizado a quebra de sigilo telefônico de Teixeira e do ramal do Teixeira, Zanin, Martins Advogados, ainda que não seja permitido bisbilhotar conversas entre resguardo e cliente. Outrossim, o MPF em Curitiba se aventurou a checar ilegalmente as contas da secretária. 

Em fevereiro de 2016, foi vazado ao jornal O Orbe, por exemplo, que o escritório teria recebido honorários da Odebrecht, mesmo sem nunca ter atuado junto à construtora. O MPF, no entanto, não checou que os honorários eram sucumbenciais. Ou seja, a secretária defendeu um cliente em uma ação contra a Odebrecht e ganhou os honorários que são devidos ao vencedor da pretexto. 

A novidade na atuação de Dallagnol, em associação com o Ministério Público Federalista no Rio, diz reverência à quantidade de escritórios considerados inimigos da “lava jato” que foram arrolados de uma só vez  — os 77 mandados de procura envolveram 26 escritórios de advocacia. 

No caso da secretária que defende Lula, o interesse é evidente. Já o interesse no Basílio Advogados se devia ao roupa de os procuradores do Paraná acharem que o escritório estava ligado ao Sergio Bermudes Advogados, que, por sua vez, tem em seu quadro a mulher do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federalista, níveo recorrente dos mandos e desmandos da “lava jato”. 

O interesse em Asfor Rocha, ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça, também é velho, e vem desde a estação da “forte de areia”, que investigou supostos crimes financeiros e lavagem de numerário cometidos por políticos. Segundo a fábula criada pelo MPF, o ministro teria trancado a “operação”. Na verdade, Asfor Rocha sequer participou da decisão.

A resguardo de Lula resumiu o caso na última peça enviada ao STF contendo diálogos entre procuradores do MPF em Curitiba e promete trazer novos elementos sobre a investida contra os escritórios.

As conversas, dizem os advogados, “contêm diversas pistas de potencial conflito de interesse que serão oportunamente elucidadas. Algumas mensagens que já constam no 8º Relatório Preparatório confirmam esse cenário e indicam um ‘caldeirão’ de interesses da ‘lava jato’ nesse ataque à advocacia”. 

O processo de Bretas contra os advogados foi suspenso em 3 de outubro do ano pretérito pelo ministro Gilmar Mendes. Na ocasião, ele considerou possuir indícios de que ministros do STJ, que têm renda por regalia de função, foram investigados sem autorização do Supremo. O bote também tem erros de cultura, já que a Fecomercio é uma entidade privada e devia ser investigada pela Justiça Estadual, além de ter ordenado buscas ilegais na moradia de desembargadores.

Leia a nota do MPF do Rio de Janeiro na íntegra:

“As investigações em relação aos envolvidos na operação Esquema S foram iniciadas a partir da quebra de sigilo bancário de Adriana Ancelmo posteriormente a operação Calicute, quando foram verificados depósitos da Fecomercio com indícios de lavagem de numerário.

A partir de novas investigações, que contaram com várias testemunhas e outras quebras bancárias, telemáticas , fiscais e telefônicas, e acordos de colaboração (que em segmento culminaram com a operação Jabuti) , foram descobertos, além de Adriana Ancelmo, outras pessoas que receberam por supostos serviços advocatícios valores do SESC e do SENAC Rio com indícios de desvios e lavagem de numerário. Com novas quebras autorizadas judicialmente, compartilhamento judicial de dados da operação Zelotes (da Justiça Federalista do DF), e outras colaborações premiadas, foram revelados os fatos denunciados na operação Esquema S. 

A denúncia é pública e todos os elementos de prova que a fundamentam foram obtidos sob absoluta validade e de congraçamento com as normas processuais vigentes, estando sob o crivo dos acusados. Não houve troca de informações ou compartilhamento de dados com qualquer outra investigação ou membros do MPF. Os procuradores da LJ RJ não podem atestar a validade e a higidez de diálogos objeto de hackeamento porque sequer tiveram entrada aos mesmos e a sua integralidade. De qualquer forma nenhum diálogo, verdadeiro ou falso, infirma ou coloca em incerteza a legitimidade na atuação dos membros da FT RJ.

Gostaríamos ainda de alongar que não reconhecemos a autenticidade dos diálogos. As provas são ilícitas. Pelos trechos apresentados não há nenhum indicativo de que Deltan tenha contribuído para a investigação, mesmo porque isso não aconteceu. Pelo que foi apresentado houve a autorização do STF para utilizar essas mensagens para a resguardo de um cliente de Zanin, que está usando na resguardo de seus próprios interesses, desvirtuando os fatos.”

Rcl 43.007

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