De Vale da Rapadura a Ilha do Silício, cidades competem por título de polo tecnológico brasileiro – 05/03/2022 – Mercado

Viajantes do início da década de 1940 que passavam pelas estradas adjacentes à cidade de Santa Clara, na Califórnia, se deleitavam com a paisagem bucólica da região. Uma vista repleta de pomares de damasco e árvores frutíferas era o que encontravam os que se aventuravam na costa oeste do país, oposta à que abrigava o centro financeiro da potência mundial.

“Era uma região agrícola que havia se especializado em produção e processamento de frutas”, afirma a historiadora americana Margaret O’Mara. “Era muito, muito rural.”

Santa Clara é o coração do icônico Vale do Silício, como ficou conhecida a região sul da baía de São Francisco após o jornalista de tecnologia Don Hoefler assim a nomear em uma série de artigos publicados no jornal Electronic News, em 1971.

A antiga cidade rural hoje é casa da Intel, a mais famosa fabricante de microchips do mundo, tem como vizinha Cupertino, onde está a sede da Apple, e fica a quase 30 km de Menlo Park, que abriga a gigante Meta, dona do Facebook, do WhatsApp e do Instagram.

Décadas depois da transformação da Califórnia, regiões do Brasil tentam repetir o feito. Em pelo menos 21 cidades, há comunidades de empreendedores ou gestores públicos que se reivindicam vales do silício brasileiros. A lista inclui locais improváveis e propostas curiosas, como Sandwich Valley, em Bauru, no interior de São Paulo, e Vale da Rapadura, em Fortaleza.

O Vale da Eletrônica, no município mineiro de Santa Rita do Sapucaí, foi um dos pioneiros na comparação, em 1985.

A fama da cidade remonta ao final dos anos de 1950, quando ela passou a contar com uma Escola Técnica de Eletrônica —uma grande novidade na época. Já em 1965, antes mesmo de a região começar a concentrar indústrias de microeletrônicos, o município inaugurou o Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações).

A mais recente investida ocorreu no Rio de Janeiro. A ideia de Eduardo Paes (PSD) é reabilitar a zona portuária da cidade, um projeto que havia sido colocado na gaveta após a euforia das Olimpíadas de 2016.

O plano do chamado Porto Maravalley, um balcão de 2,8 mil metros capaz de abrigar 144 startups que lá receberão mentorias, foi anunciado em 2019, e desde o meio do ano passado vem sendo alardeado pelo secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Francisco Bulhões. O espaço terá um coworking e receberá eventos.

A antiga promessa de um Vale do Silício na Floresta Amazônica também foi revivida por declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. Durante participação na COP26 (26ª Conferência Mundial do Clima), no ano passado, o ministro defendeu isenção de impostos a big techs, como Google, Amazon e Tesla, e afirmou ser preciso transformar a vocação da região, para que ela se torne a “capital mundial da economia verde e digital”.

A proposta revisita a ideia da Zona Franca de Manaus, parque industrial no Amazonas que dá vantagens fiscais a empresas ali instaladas —​e ameaçada por Guedes desde 2018. O grosso da produção é de itens como computadores e tablets, embora as fábricas sejam essencialmente montadoras, e não produtoras de tecnologia.

Em 2021, o estado concentrou apenas 0,11% dos aportes de capital de risco, responsáveis por financiar inovação.

Para além de promessas e projetos, o Brasil já tem algumas cidades que entregam um ecossistema de inovação tecnológica robusto. Alguns exemplos são Florianópolis, com uma rede de inovação distribuída na cidade; Porto Alegre, com um parque tecnológico universitário; Recife, com um espaço de inovação na antiga zona portuária da cidade; e São José dos Campos, com alguns dos principais institutos de tecnologia do país.

A corrida pelo título de “vale do silício” tem causado a aprovação de uma enxurrada de leis do setor nas câmaras das cidades pelo Brasil. A reportagem apurou que ao menos 11 leis que se relacionam com o setor foram aprovadas em dez grandes cidades nos últimos cinco anos.

Há ainda os gestores que planejam novas legislações, como o Distrito Federal, que segundo a sua Secretaria de Inovação está trabalhando para “passar legislações que reduzam o imposto pago pelas startups”.

“Não estamos brincando quando falamos que queremos transformar o Distrito Federal no próximo Vale do Silício”, afirma a pasta por email.

No premiado livro O Código (Alta Books, 2021), a historiadora americana e professora da Universidade de Washington Margaret O’Mara destrinchou o papel decisivo que o Departamento de Defesa dos EUA desempenhou na ascensão do Vale do Silício.

“O principal fator foi o investimento dos Estados Unidos em tecnologia militar durante a Guerra Fria”, afirma O’Mara.

“Foi o começo da indústria de eletrônicos no Vale do Silício, porque havia instalações militares na região, e a Universidade Stanford era muito focada em construir seus programas de ciência e engenharia para conseguir parte do dinheiro que vinha de Washington.”

A microeletrônica, tipo de tecnologia desenvolvido ali, atendia perfeitamente os militares: permitiu que os computadores ficassem cada vez menores e mais potentes, base da revolução digital a que o mundo assistiria décadas depois.

As condições ali criadas abriram as portas para uma cultura empresarial muito específica. Por estar longe do grande centro financeiro do país, na costa leste, a região inteira tornou-se altamente especializada nesse tipo de negócio. Grande parte dos estabelecimentos focava no setor, de escritórios de advocacia a fundos de capital de risco —que, amparados pelo investimento e interesse do Estado, tinham mais confiança no investimento.

“Eu odeio a frase: ‘Quando o governo não atrapalha, ele já ajuda bastante’. Isso está completamente errado”, diz a secretária de Inovação de Curitiba, Cris Alessi. A cidade, que se destacou no início dos anos 2000 por iniciativas no campo da tecnologia, vem tentando retomar seu espaço.

“Só o poder público tem o poder de legislar. Se nós não tivéssemos um programa de incentivos fiscais, Curitiba não teria metade das startups importantes que tem hoje, porque essas startups estariam em outros lugares”, defende a secretária.

Em 2017, durante o primeiro mandato da gestão atual, foi criado o Vale do Pinhão, projeto que quer colocar Curitiba novamente no mapa da inovação. Em 2018, eles revisaram uma lei de incentivos fiscais de 2006, que abrangia apenas uma parte da cidade, para atender todo o território.

O caminho é oposto ao traçado pelo Porto Digital, parque tecnológico que há 22 anos restaurou a antiga zona portuária de Recife por meio de reduções fiscais.

A ideia de um parque do tipo era bastante inovadora para a época. “Os parques tecnológicos, que são engrenagens de transferência de conhecimento por meio do empreendedorismo, nasceram muito ligados à universidade”, diz Francisco Saboya, um dos acadêmicos que pleitearam o parque em Recife.

“[Ficavam] em um lugar relativamente distante dos centros urbanos, aquele lugar mais idílico, onde os passarinhos cantam, onde tem um laguinho, porque os gênios estão trabalhando.”

Nos anos 1990, Saboya e outras lideranças queriam estancar a fuga de cérebros que ocorria no estado com a quebradeira que o país vivia, recuperando o pioneirismo tecnológico que Pernambuco experimentara nos anos 1950 e 1960.

“Nos anos 1990 acontece um paradoxo daqueles que ou você enfrenta para resolver ou você perde a onda”, conta ele. “Ao mesmo tempo que a economia pernambucana tradicional realmente declinava, nasciam as bases de um novo ativo econômico chamado conhecimento. Capital humano qualificado, em especial na área de tecnologia da informação.”

Em destaque por seu tamanho, São Paulo não conta com parques tecnológicos tão reconhecidos como outros municípios do país —cidades do interior do estado, como São José dos Campos e Piracicaba, lembrado como o Agtech Valley, ficam com os louros.

Tentativas mais tímidas de união de empresários em um único local, como a Praça do Silício, na República, e o Potato Valley, no Largo da Batata, despontam na metrópole de tempos em tempos.

Luciano da Silveira Araújo, diretor do Conecta.Hub.SP —orgão da capital que visa integrar as iniciativas de inovação—, diz que classificaria o ecossistema paulistano como um cluster, uma concentração de empresas que guardam características semelhantes. “São Paulo precisa ter essa estrutura mais descentralizada como um organismo, um tecido urbano”, afirma.​

“São Paulo tem uma capacidade de criar propriedade intelectual de maneira incrível. Para o desenvolvimento de uma empresa, São Paulo tem absolutamente tudo para fazer essa parte humana de uma maneira exponencial”, afirma Araújo, referindo-se à diversidade da população e à quantidade de profissionais na cidade. “O que faz um ambiente inovador é a multidisciplinaridade.”

A despeito do poder de divulgação que um “valley” brasileiro pode ter, a maioria dos entrevistados rejeita a ideia de copiar o modelo do Vale do Silício, que deu luz às companhias mais ricas da história —mas atualmente em crise.

Mark Zuckerberg, dono da Meta, já depôs no Congresso americano quatro vezes em quatro anos, sob críticas de prejudicar da saúde dos jovens à democracia com seu modelo de negócios. Google e Twitter, também frutos da região, já estiveram na mesma posição. Há ainda as ameaças de regulamentação, especialmente na União Europeia, e do fenômeno das big techs chinesas.

O próprio vale já não é mais o mesmo, diz a historiadora Margaret O’Mara.

“Você tem de ser muito rico para comprar uma casa lá e viver confortavelmente. Há uma desigualdade econômica enorme, muitas pessoas sem-teto ou vivendo em trailers estacionados na rua”, afirma. “A região não funciona mais como funcionava, é mais difícil para pequenas empresas ganhar escala.”

“Construir um polo tecnológico deveria ser construir uma região dinâmica e que ofereça oportunidades para um grande número de pessoas. É aí que o Vale do Silício falhou. Tem seus benefícios econômicos, mas eles não foram compartilhados de forma suficientemente ampla”, diz a historiadora.