A prevalência do estresse e da angústia na advocacia

Os advogados são parte integrante do nosso sistema jurídico. A Constituição da República assegura no seu Art. 5ª, LXXIV e Art. 134 que todo cidadão que não tenha recursos suficientes para contratar um advogado, sem prejuízo do seu sustento próprio e da sua família, tem direito a um Defensor Público para patrocinar seus interesses.

A representação legal pode ser crucial, especialmente quando os riscos são altos ou a questão é extremamente complexa. Consequentemente, qualquer ameaça à capacidade de um advogado de representar seu cliente pode minar os princípios de equidade e justiça dos quais o sistema jurídico depende. Uma dessas ameaças vem de advogados que estão muito estressados para fazerem seu trabalho adequadamente.

Em 1991, a Ordem dos Advogados dos EUA (American Bar Association – ABA) abordou o crescente problema das consequências do estresse no sistema jurídico em uma conferência intitulada “At the Breaking Point” (“No Ponto de Ruptura”, numa tradução livre). O relatório produzido a partir da conferência identificou a tendência crescente de insatisfação no trabalho e um declínio na saúde física e mental dentro da profissão de advogado (ABA, 1991). O relatório concluiu que a tendência era uma ameaça significativa ao bem-estar dos advogados e escritórios de advocacia em todo aquele país.

Em 2018, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) nacional publicou o Provimento 186, que criou o Plano Nacional de Prevenção das Doenças Ocupacionais e de Saúde Mental da Advocacia. O movimento foi seguido no mesmo ano da publicação da primeira edição da Cartilha da Saúde Mental da Advocacia, que hoje está em sua terceira edição, publicada em setembro de 2021.

As taxas surpreendentes de depressão, abuso de substâncias e burnout entre os advogados, no entanto, não afetam apenas eles próprios, mas também ameaçam a integridade de todo o sistema jurídico, pois tornam os advogados menos capazes de realizar seus trabalhos e proteger os interesses de seus clientes adequadamente. Portanto, é de extrema importância compreender a magnitude do problema e suas consequências para os profissionais do direito e a comunidade.

O sofrimento na advocacia

A comunidade jurídica começou a identificar um problema que levava ao declínio da satisfação no trabalho dos advogados na década de 1980. A Divisão de Jovens Advogados da ABA nos EUA começou a realizar pesquisas em todo o país para investigar a satisfação na profissão de advogado. Entre a primeira pesquisa em 1984 e uma pesquisa de acompanhamento em 1990, houve um aumento de 27% nos índices de insatisfação com o sistema legal, com 19% da amostra de advogados insatisfeitos com suas carreiras no ano de 1990 (Elwork, 2007).

Em estudos mais recentes (2016) realizado com 13.000 advogados pela própria ABA em parceria com a Hazelden Betty Ford Foundation, cerca de 28% dos advogados estavam com algum grau de depressão, outros 23% de estresse e 19% com algum transtorno de ansiedade. Já no ano de 2019, a mesma instituição fez outro levantamento que revelou um percentual ainda mais preocupante: 11% dos advogados já tiveram pensamentos suicidas durante a carreira.

A consultoria em saúde mental Bee Touch, em parceria com algumas seccionais da OAB, levantou dados preocupantes em 2022 sobre a incidência de estressores na advocacia brasileira: No Piauí, cerca de 19% dos advogados e advogadas do Estado possuem algum tipo de diagnóstico de saúde mental, destacando-se transtornos de ansiedade, como depressão, Burnout ou síndrome do pânico. Já no Mato Grosso do Sul, os resultados revelaram que 63% dos advogados referiram sentir cansaço extremo, 60% irritabilidade e 29% taquicardia. Já no Estado do MS, 47% dos advogados apresentaram sintomatologia de ansiedade, enquanto 33%, sintomas de depressão. Além disso, 31% dos participantes reportaram uso de antidepressivos e ansiolíticos.

O sofrimento no campo jurídico parece se manifestar de várias maneiras para os advogados. Por exemplo, os advogados experimentam certos marcadores psicológicos, como depressão, sofrimento psicológico geral e alcoolismo, em uma taxa muito maior do que a população adulta geral e a população profissional geral, conforme demonstrados nos dados das pesquisas mencionadas acima. A vida pessoal dos advogados também é afetada pela angústia, e muitas vezes os advogados relatam casamentos fracassados, problemas com a família e burnout. A fim de compreender plenamente a prevalência do sofrimento na profissão de advogado, é importante compreender a prevalência do estresse psicológico, físico e social nos membros dessa profissão.

Estresse psicológico

Grande parte da pesquisa sobre as consequências do estresse em profissionais do direito tem se concentrado nas discrepâncias entre as taxas de problemas psicológicos para a população de advogados e a média nacional. Estudos indicam que uma grande proporção de advogados não está apenas insatisfeita com suas carreiras, mas também sofre de alguma forma de doença mental, como depressão ou abuso de substâncias. Consequentemente, uma das maiores preocupações para a comunidade jurídica deve ser abordar os problemas de saúde psicológica que muitos profissionais do direito enfrentam, como a depressão.

Depressão

Normalmente, quando uma pessoa passa por grande quantidade de estresse, ela pode experimentar um período de tristeza ou retraimento. Embora os períodos de tristeza (e felicidade) façam parte do ciclo normal da vida, quando uma pessoa experimenta tristeza por um longo período de tempo e a mesma é acompanhada por outros sintomas, como alteração no apetite, problemas para dormir e perda de interesse ou prazer nas atividades habituais, ele ou ela pode ser diagnosticado como clinicamente deprimido (Benjamin et al., 1990).

De fato, os advogados parecem ser a exceção ao profissional típico, uma vez que os profissionais em geral sofrem de depressão em taxas mais baixas do que a população em geral. Em um estudo com 239 ocupações, os advogados foram 70% mais propensos a serem deprimidos do que o resto das populações estudadas (Elwork, 2007). Um estudo de 1990 com quase 100 profissões descobriu que 10% dos advogados preenchiam os critérios para transtorno depressivo maior, uma doença que é tipicamente diagnosticada em apenas 3% a 9% da população geral (Eaton, Anthony, Mandel e Garrison, 1990). Depois de ajustar demografia, raça e gênero, os advogados (assim como secretárias e professores) estavam desproporcionalmente deprimidos em comparação com as outras ocupações.

Consequentemente, a alta taxa de depressão para os advogados não parece ser devido ao fato de o direito ser uma ocupação de alto estresse. Esses achados indicam que existem estressores específicos do sistema jurídico que resultam em consequências extremas para os advogados.

Sofrimento Psicológico Geral

Embora grande parte da pesquisa sobre as taxas de sofrimento psicológico para advogados tenha se concentrado na depressão, os advogados também sofrem de outras formas de sofrimento psicológico. Um estudo de uma ampla variedade de sintomas de sofrimento psicológico indicou que os advogados relataram taxas mais altas de sofrimento psicológico global. Especificamente, o estudo investigou relatos de sintomas específicos de ansiedade, ­compulsividade obsessiva, alienação e isolamento social, raiva, estresse, insegurança, paranoia, autoconsciência, insatisfação conjugal, somatização e depressão. Entre 15% e 30% dos advogados relataram escores acima da média nas medidas de obsessivo-compulsividade, alienação e isolamento social, ansiedade interpessoal e geral e depressão; estatisticamente, apenas 2,27% de uma população deveria ter uma pontuação tão alta (Beck et al., 1996). De fato, os resultados indicaram que os advogados sofriam de sintomas de todos os distúrbios estudados, exceto somatização, em uma taxa significativamente maior do que a população geral. Portanto, é provável que grande parte dessa população não sofra apenas de depressão, mas também de outros distúrbios psicológicos, o que indica que há consequências psicológicas ainda maiores para os profissionais do direito.

Abuso de Substâncias

Tem havido uma atenção significativa na prevalência do abuso de substâncias dentro da profissão legal (Benjamin, Sales, & Darling, 1992; Burman, 1997; Daicoff, 2012; Robinson, 2010; ABA, 2016). Descobriu-se que os advogados abusam do álcool em uma taxa muito maior do que a média da população, e a porcentagem de advogados que abusam do álcool tende a aumentar com os anos de prática.

O abuso de álcool parece começar para os profissionais do direito durante a faculdade. Estudantes de direito tendem a lidar com o estresse abusando de álcool e drogas e isolando-se socialmente. Estudos indicam que eles usam o álcool como uma forma mal adaptativa de alívio do estresse (American Association of Law Schools [AALS), 1994). Uma pesquisa com estudantes de direito indicou que eles acreditavam que o abuso de álcool no campus era uma parte comum e normal das atividades sociais (Burman, 1997). Assim como as taxas de alcoolismo progridem ao longo dos anos de prática, os estudantes bebem mais e ficam cada vez mais preocupados com o uso de álcool ao longo da faculdade (Daicoff, 2012).

Altas taxas de abuso de álcool e alcoolismo são particularmente alarmantes para a população de advogados, porque o alcoolismo pode afetar o desempenho no trabalho. O alcoolismo, uma doença crônica e progressiva caracterizada pela perda de controle do indivíduo sobre o consumo de álcool, pode resultar tanto em alterações comportamentais quanto em comprometimento cognitivo. De fato, um dos critérios para diagnosticar o alcoolismo – ou qualquer forma de abuso de substâncias – é que ele interfere no funcionamento ocupacional da pessoa. Assim como na depressão, é improvável que os advogados que sofrem de alcoolismo procurem tratamento, e seus colegas de trabalho raramente abordam ou reconhecem o problema (Robinson, 2010).

Sofrimento Social

Embora grande parte das pesquisas envolvendo as consequências do sofrimento do advogado se concentre no impacto psicológico, os advogados também sofrem em suas vidas sociais. Devido à pressão para cronometrar horas faturáveis, muitos advogados passam horas noturnas e finais de semana no escritório. Como devem dedicar muito do seu tempo ao trabalho, podem ter problemas para equilibrar trabalho e vida social. Consequentemente, os advogados são propensos ao burnout ou exaustão emocional como resultado de passarem tantas horas trabalhando. O burnout pode levá-los a deixar seus empregos ou até mesmo a abandonar a profissão.

Advogados jovens relatam que são forçados a trabalhar muitas horas e assumir muitas responsabilidades sem orientação suficiente. Além disso, o desgaste está se tornando mais problemático com o avanço da tecnologia. Os escritórios de advocacia estão pressionando por um modelo de trabalho “melhor, mais rápido e mais barato”, uma vez que os clientes podem facilmente buscar assistência jurídica numa concorrência que cresce a cada dia. Devido aos avanços nos meios de comunicação, espera-se que os advogados estejam de plantão 24 horas por dia, 7 dias por semana. Essa pressão constante para se concentrar no trabalho está resultando em advogados esgotados, o que pode afetar diretamente a capacidade do advogado de interagir com seus clientes.

Fatores que produzem angústia na profissão de advogado

Ao considerar os possíveis fatores que resultam nas altas taxas de sofrimento do advogado, é importante ter em mente que eles experimentam o sofrimento de diferentes maneiras. Embora os advogados como um todo sofram de taxas mais altas de insatisfação no trabalho, depressão e alcoolismo do que a população em geral, nem todos os advogados estão angustiados. Além disso, aqueles que sofrem de angústia não estão necessariamente experimentando todas essas formas em combinação. Embora os fatores que influenciam as classificações de angústia possam ser semelhantes, eles não afetam todas as pessoas da mesma forma.

Considerando as altas classificações de angústia dos profissionais do direito, é importante entender quais fatores causam a angústia antes que medidas possam ser tomadas para resolver o problema.

O processo de se tornar um advogado pode ser um fator que influencia no sofrimento, principalmente porque a faculdade de direito é conhecida por ser desafiadora, competitiva e estressante. Tem havido algum suporte para esta hipótese, pois estatísticas mostram que os estudantes de direito não são significativamente diferentes da população geral em classificações de angústia, mas as taxas de depressão aumentam significativamente ao longo da faculdade de direito (Benjamin, Kaszniak, Sales, & Shanfield, 1986). Dentro de 2 anos após a formatura da faculdade de direito, no entanto, o número de pessoas ainda deprimidas diminuiu significativamente; esta explicação, portanto, não explicaria a contínua ­insatisfação com a profissão de advogado. Assim, provavelmente há algo sobre a própria carreira que influencia o sofrimento do advogado.

Estressores ambientais genéricos, como pressões de tempo, sobrecarga de trabalho e competição, em combinação com estressores ambientais específicos do direito, como a configuração contraditória do sistema legal e dilemas éticos, também são possíveis fatores que influenciam a insatisfação dos advogados. Embora seja importante entender esses fatores individualmente, também é importante reconhecer que nenhum fator funciona isoladamente. As altas taxas de sofrimento são provavelmente o resultado de pessoas com certas predisposições que são mais suscetíveis ao sofrimento, escolhendo o direito como uma carreira em combinação com gatilhos, como o processo estressante de frequentar a faculdade de direito e se tornar um advogado.

Ambiente e Personalidade

Competitividade

A competitividade foi definida como “o desejo de vencer em situações interpessoais” (Houston, Farese, & La Du, 1992). Consistente com o estereótipo típico de advogados, estudos sugerem que os advogados são mais competitivos do que outras populações. Por exemplo, os advogados em geral foram considerados mais competitivos do que as enfermeiras, e as advogadas foram consideradas mais competitivas do que as médicas (Williams & McCullers, 1983). Além disso, Schindler (1979) descobriu que advogadas têm níveis mais altos de testosterona, um hormônio associado à competitividade, do que enfermeiras, atletas e professoras (Dabbs, Alford, & Fielden, 1998). Esses achados indicam que a competitividade pode ser uma característica compartilhada entre as pessoas atraídas pelo direito. Sendo assim, é possível que o traço comum de competitividade possa ser um fator contribuinte para o estresse entre os advogados.

Perfeccionismo e orientação para a realização

Relacionado à competitividade, os advogados tendem a ser perfeccionistas com grande desejo de atingir seus objetivos. O perfeccionismo é um traço associado a pessoas que precisam estar no controle total e acreditam que, se seu desempenho não for perfeito, elas falharam (Elwork, 2007). Da mesma forma, a necessidade de realização é o desejo de competir contra um alto padrão de excelência interno ou externo. Tanto o perfeccionismo quanto o desejo de realização estão associados ao desejo de atender a padrões extremamente altos. Ambas essas características podem ser positivas e provavelmente contribuem para que os advogados sejam bem-sucedidos em sua ocupação.

O perfeccionismo e a necessidade de realização, no entanto, também podem fomentar sentimentos de angústia quando os advogados não conseguem atingir seus próprios padrões extremamente elevados. É altamente improvável que tudo corra bem o tempo todo – especialmente em um domínio como o direito, que tem um alto grau de imprevisibilidade e rotula rotineiramente as partes de “vencedoras” e “perdedoras”. Como todos os perfeccionistas, os advogados provavelmente ficarão eternamente insatisfeitos.

Estilo de tomada de decisão

Outra característica tipicamente associada aos advogados é que são seres humanos frios, sem emoção, lógicos e racionais. Esse estereótipo pode ser devido, em parte, à forma como os advogados tomam decisões (Daicoff, 2012). Especificamente, os advogados tendem a ser mais propensos a usar raciocínio impessoal e análises de custo-benefício. De fato, em uma amostra de mais de 1.200 advogados, 77% indicaram que fizeram escolhas baseadas em uma lógica puramente racional (Richard, 1993). O distanciamento emocional pode influenciar particularmente a angústia do advogado, tornando-os incapazes de compreender o papel das emoções no seu próprio comportamento ou no comportamento do cliente e tornando-os também incapazes de gerir as suas emoções de forma saudável (Elwork, 2007).

Gatilhos da Faculdade de Direito             

Um fator que pode estimular a depressão são as características das interações com outros estudantes de direito. Como indicado anteriormente, os advogados tendem a ser competitivos e menos sintonizados com as emoções dos outros.  Além da competição por notas, os estudantes de direito competem uns contra os outros por estágios e empregos após a formatura. O conhecimento de que o desempenho na faculdade de direito determina os ganhos e a colocação profissional sem dúvida pressiona os estudantes de direito e pode desencadear uma predisposição subjacente à doença mental.

Finalmente, a grande maioria dos estudantes de direito são jovens adultos em seus 20 e poucos anos – uma idade em que muitos, se não a maioria, dos indivíduos estão lutando com grandes escolhas de vida em suas vidas pessoais e profissionais. Como muitos alunos ingressam na faculdade de direito sem uma noção clara de por que querem se tornar advogados ou que tipo de direito pretendem praticar, eles podem se perguntar: “Por que estou fazendo isso?” Esses tipos de conflitos também podem contribuir para o sofrimento dos estudantes de direito (Elwork, 2007).

Estressores Genéricos e Específicos do Trabalho

Embora a faculdade de direito possa ser um gatilho para a depressão e outras formas de sofrimento, é improvável que seja a principal razão para as taxas elevadas de sofrimento mental na profissão de advogado. Em primeiro lugar, a faculdade dura apenas alguns anos e, em seguida, os advogados são confrontados com todo um novo conjunto de desafios e estressores. É provável, portanto, que as pressões do trabalho interajam com outros fatores para continuar a taxa relativamente alta de angústia entre os advogados que passaram pela faculdade de direito.

Direito é uma profissão naturalmente estressante e com muitas pressões. Certas pressões não são exclusivas do direito e podem ser encontradas em várias profissões. Pressão de tempo, sobrecarga de trabalho, competição e colegas de trabalho/pessoas difíceis são estressores que podem ser encontrados em muitos ambientes de trabalho. Portanto, é improvável que esses fatores isoladamente expliquem as taxas mais altas de angústia na profissão de advogado.

Embora os advogados possam sofrer essas pressões em maior grau do que outras profissões, também existem estressores específicos da lei que podem criar um ambiente mais estressante. Os estressores específicos da lei incluem dilemas éticos, problemas para equilibrar o papel de advogado dos clientes com o papel de defensor da lei e o aumento da concorrência. Embora não se entenda muito sobre a influência exata dos estressores do trabalho na insatisfação ou angústia do advogado, é provável que os estressores genéricos do trabalho se combinem com pressões específicas da lei para perpetuar sentimentos de angústia e insatisfação com a profissão jurídica.

Pressões de tempo e sobrecarga de trabalho

Um fator genérico que pode influenciar os níveis de estresse dos advogados é a pressão do tempo no trabalho (trabalhar com prazos apertados) em combinação com a sobrecarga de trabalho (simplesmente ter muito trabalho para fazer de uma só vez). Embora muitas profissões sofram restrições de tempo ou sobrecarga de trabalho, os advogados provavelmente estão entre as principais profissões em termos de pressões de tempo.

Normalmente, espera-se que os advogados que trabalham para escritórios registrem pelo menos 1.800 horas faturáveis por ano (ou 7 horas faturáveis por dia se o advogado trabalhar 5 dias por semana durante 52 semanas por ano). Como as horas faturáveis incluem apenas as horas de trabalho que podem ser cobradas de um cliente e não outras coisas que os advogados devem fazer durante o dia de trabalho, como comer, ler, responder a e-mails ou recrutar novos clientes, estima-se que, para obter 7 horas faturáveis por dia, os advogados devem estar no trabalho por 9 a 12 horas.

A fim de atender às horas faturáveis exigidas para o ano, muitas vezes os advogados devem ficar até tarde e trabalhar nos fins de semana ou feriados. Consequentemente, queixam-se de não terem tempo suficiente para passar com suas famílias. A pressão do tempo pode até mesmo levar alguns advogados a se envolverem em comportamentos eticamente questionáveis, como supervalorização ou duplicação das horas cobradas.  

Concorrência

Como o número de advogados aumentou tremendamente nas últimas décadas, muitos advogados citam o aumento da concorrência como a principal fonte de pressão no trabalho. Atualmente, o Brasil é o país com a maior proporção de advogados por habitante do mundo. Ao todo cerca de 1,3 milhão de advogados (OAB) exercem regularmente a profissão entre 212,7 milhões de pessoas (IBGE). Proporcionalmente, falamos de um advogado para cada 164 brasileiros residentes no país. Para termos uma ideia comparativa, de acordo com a ABA a proporção americana é de um advogado para cada 253 habitantes. Por sua vez, nossa vizinha Argentina possui um advogado para cada 365 habitantes (ONU), enquanto o Reino Unido possui um para cada 471 habitantes.

Essa proporção brasileira drástica resulta no aumento da concorrência por empregos e em um maior sentimento de competitividade mesmo após a contratação. Por exemplo, alguns escritórios informam aos associados que nem todos se tornarão sócios. Outros aumentaram o tempo até que um associado se torne elegível para se tornar um sócio, e as “sociedades” sem capital tornaram-se cada vez mais populares. As estatísticas indicam que a insatisfação é maior dentro dos grandes escritórios, o que sugere que o aumento da concorrência interna também pode resultar em maiores taxas de insatisfação (Daicoff, 2012). Além disso, com mais advogados disponíveis, os escritórios de advocacia aumentaram a concorrência por clientes, o que pode criar um ambiente de trabalho mais estressante dentro do escritório.

Área de Atuação

Embora os advogados em geral tendam a experimentar níveis elevados de angústia, este nível parece depender parcialmente da sua área de atuação. Certas práticas parecem ser mais estressantes do que outras. As classificações de estresse em diferentes práticas parecem aumentar à medida que a carga de trabalho, as pressões de tempo e/ou a quantidade de conflito com outros advogados e entre partes opostas aumentam.

Além dos altos níveis de conflito, a carga de trabalho excessiva pode ajudar a explicar por que os advogados de determinadas áreas enfrentam mais conflitos do que outros advogados. Em geral, os advogados de prática privada parecem experimentar níveis mais elevados de estresse do que os advogados que trabalham para o governo ou dentro empresas privadas (Elwork, 2007). Defensores públicos, no entanto, parecem experimentar níveis mais altos de angústia do que outros advogados (Lynch, 1997). Os defensores públicos normalmente têm cargas de trabalho pesadas e muitas vezes devem ir a julgamento sem preparação adequada enquanto enfrentam promotores fervorosos.

Conflitos de papéis legais e Dilemas Éticos

Embora muitos profissionais enfrentem dilemas éticos, existem certos dilemas que são exclusivos da população de advogados. O direito é regido por princípios morais estritos para garantir a aplicação justa das leis da nação. No entanto, para proteger a integridade do sistema, os advogados também devem proteger os interesses de seus clientes. Proteger a justiça e proteger o cliente são dois objetivos que não necessariamente se alinham. Na verdade, os advogados muitas vezes enfrentam o dilema ético de representar clientes que eles sabem que infringiram a lei. Às vezes, os advogados até representam clientes que estão tentando usar a lei para alcançar fins questionáveis, colocando em conflito os interesses e o comportamento ético do cliente. Embora possam hesitar em representar esses clientes, o sistema jurídico também depende da representação justa de todas as partes. Portanto, é provável que os advogados às vezes sintam tensão entre os princípios do direito e seus próprios padrões morais.

Como resultado das pressões que os advogados enfrentam tanto para proteger seu cliente quanto para alcançar resultados justos, muitos advogados indicam insatisfação com seus papéis no sistema jurídico (Elwork, 2007). Além disso, eles podem sentir que não estão contribuindo para a sociedade como pretendiam quando ingressaram na advocacia.

No geral, quase parece que toda a estrutura do sistema jurídico cultiva a angústia, desde o processo contraditório básico até as pressões cotidianas do trabalho. Estressores genéricos, como pressão de tempo, sobrecarga de trabalho e competição, são exacerbados por fatores como demandas de horas faturáveis e número crescente de advogados na profissão. Os estressores legais específicos combinam-se com os estressores gerais do trabalho para resultar em níveis ainda maiores de angústia. Em particular, preocupações com dilemas éticos e ambiguidade em relação ao papel legal do advogado podem causar sofrimento e confusão para os profissionais do direito.

Consequências do sofrimento na profissão de advogado            

A fim de compreender plenamente as ramificações dos altos níveis de sofrimento na profissão de advogado, é importante reconhecer as consequências de tal sofrimento. Além de afetar o nível de bem-estar mental e físico do profissional, conforme discutido anteriormente, altos níveis de angústia podem ter altos custos para o empregador e para os clientes desse advogado. A depressão, por exemplo, não só resulta em consequências emocionais e físicas para o indivíduo deprimido, como também pode prejudicar o desempenho no trabalho. Quando os funcionários são incapazes de desempenhar suas funções adequadamente, seus colegas de trabalho e empregadores – e no caso de profissionais liberais, seus clientes – sofrem as consequências. Dependendo do caso, isso pode ter efeitos drásticos para o cliente, podendo até mesmo prejudicar a integridade de todo o processo legal. Embora muitas pessoas sejam provavelmente afetadas pelo sofrimento dos advogados, os três grupos mais influenciados na comunidade jurídica são os próprios advogados, os escritórios de advocacia para os quais os advogados trabalham e os clientes a quem os advogados atendem.

Consequências para o advogado

Além das ramificações mais óbvias cobertas anteriormente – como doença mental, abuso de substâncias, insatisfação no trabalho e problemas familiares/relacionais – o sofrimento do advogado tem sido associado a ações disciplinares. Muitas vezes, os advogados que estão passando por dificuldades, especialmente na forma de depressão ou alcoolismo, não conseguem concluir suas tarefas. Esses problemas podem resultar em processos de negligência contra o advogado. Desnecessário dizer que a ação disciplinar é um estressor significativo em si. A vergonha, o constrangimento e as consequências financeiras que se seguem apenas exacerbarão o problema subjacente.

Doenças mentais e abuso de drogas geralmente resultam em negligência de casos ou clientes, o que pode explicar uma grande proporção de casos disciplinares. Além disso, respostas inadequadas de enfrentamento a altos níveis de sofrimento podem resultar em comportamento não profissional e violações éticas. Por exemplo, a depressão e o alcoolismo podem resultar em aumento das taxas de isolamento social. O isolamento social, por sua vez, pode promover comportamentos antiéticos, seja porque o advogado não tem apoio social de outros ou porque não há revisão por pares para manter o trabalho sob controle.

Consequências para o escritório de advocacia

Uma vez que muitas das consequências que os advogados enfrentam como resultado do sofrimento estão relacionadas à incapacidade de realizar seus trabalhos, não é surpreendente que os escritórios de advocacia também enfrentem ramificações desse sofrimento.

O sofrimento do advogado pode ser um fardo para os escritórios de advocacia de mais maneiras do que o aumento das ­práticas irregulares e das taxas de seguro de saúde, que ficarão mais altas com o agravamento das doenças e dos atendimentos. Muitos advogados insatisfeitos respondem deixando o escritório ou mudando completamente de carreira. Absenteísmo e rotatividade podem custar caro ao empregador, que não só precisa se ajustar aos dias em que o advogado não aparece, mas também tem que investir tempo e dinheiro na formação de novos advogados para assumir as tarefas não concluídas. Em empresas com casos extremamente complexos ou clientes de longo prazo, os custos reais do volume de negócios podem ser especialmente difíceis de mensurar, pois ainda mais tempo deve ser dedicado ao estabelecimento de relacionamentos com os clientes.

Consequências para os Clientes

A incapacidade de um advogado de desempenhar seu trabalho adequadamente pode ter consequências extremas para os clientes cujos interesses o advogado deve servir e proteger. De fato, 40% dos advogados em uma pesquisa com mais de 600 advogados indicaram que cometeram erros evitáveis devido à pressão do trabalho (Press, 1999). Embora muitos desses erros nunca sejam descobertos ou tenham um impacto adverso no caso, é possível que os erros (que os advogados reconheceram que cometeram) tenham efeitos negativos significativos sobre os clientes. No mínimo, os erros muitas vezes diminuíram a eficiência do advogado e custaram dinheiro ao cliente.

O sofrimento do advogado também pode ter um impacto não monetário nos clientes. Por exemplo, a busca por dinheiro e a pressão dos advogados para alcançar o maior ­resultado econômico podem fazer com que os mesmos aconselhem seus clientes a tomarem decisões que não levem em consideração outros fatores que podem ser do melhor interesse de seus clientes. Além disso, o esforço para produzir horas faturáveis pode resultar em advogados alocando seu tempo de uma maneira que não é necessariamente a mais benéfica para o cliente. E, finalmente, altos níveis de sofrimento do advogado podem resultar em outras consequências sociais, como interações mais desagradáveis entre advogado e cliente.

Conclusões

Os advogados são membros importantes do sistema jurídico encarregados de seguir os procedimentos legais adequados e argumentar casos de forma que promova os melhores interesses de seus clientes. Muitos advogados, no entanto, sofrem de angústia, o que é demonstrado nas taxas acima da média de depressão e abuso de substâncias para advogados quando comparados com a população em geral, conforme visto anteriormente. Além disso, devido às grandes demandas de trabalho, os advogados frequentemente relatam problemas conjugais/familiares e/ou esgotamento profissional, atualmente conhecido como burnout. Esse sofrimento pode ser extremamente caro para o sistema legal e, portanto, devem ser tomadas medidas para minimizá-lo.

A fim de abordar o sofrimento na advocacia, mais pesquisas devem ser conduzidas investigando as causas desse sofrimento. É possível que as pessoas que se tornam advogados sejam mais propensas ao sofrimento e tenham predisposições diferentes das pessoas que escolhem outras profissões (Daicoff, 2012; Elwork, 2007). Embora possam existir certas características que influenciam os índices de angústia no campo jurídico, essas características provavelmente interagem com certos aspectos do próprio sistema jurídico. Estudantes de direito não são estatisticamente diferentes da população geral ou daqueles estudantes que ingressam em outros caminhos profissionais de alto estresse, como a faculdade de medicina. No entanto, no final da faculdade de direito, os estudantes relatam depressão em taxas muito mais altas do que outras populações (Benjamin et al., 1990). Além disso, os advogados são frequentemente desafiados com dilemas éticos (Miller & Bornstein, 2012) e conflitos de papéis legais não vivenciados por outras populações profissionais (Elwork, 2007), o que pode levar a conflitos internos e angústia.

A angústia do advogado pode ter um impacto significativo não apenas nele, mas também no sistema jurídico como um todo. Problemas psicológicos, como depressão e abuso de substâncias, não apenas ameaçam a integridade do sistema jurídico, como também podem prejudicar o cliente e o escritório envolvido. Consequentemente, é importante que o sistema jurídico reconheça que existe um problema e comece a resolvê-lo. Os advogados devem estar atentos aos sintomas de sofrimento psíquico e devem ser estimulados a procurar ajuda, sem repercussões, assim que constatarem a existência de um problema. No final, é necessário que o sistema jurídico reconheça que a angústia do advogado é um problema significativo e que os advogados trabalhem com seus clientes e escritórios de advocacia para desenvolver soluções para esse problema.